Hector Babenco tem sua obra revista numa retrospectiva completa que a Cinemateca Brasileira exibe a partir desta sexta-feira (30), em comemoração aos 80 anos do cineasta. Nascido em Mar del Plata, na Argentina, em 7 de fevereiro de 1946, ele deixou seu país no início dos anos 1970 rumo ao Brasil, onde fincou sua obra.
De início, foi codiretor do documentário “O Fabuloso Fittipaldi”, três anos após a chegada em solo brasileiro, mas o título foi assinado originalmente apenas por Roberto Farias —ainda assim, compõe a mostra da Cinemateca.
O começo efetivo da carreira como diretor de cinema no Brasil se daria em 1975, com “O Rei da Noite”. O longa-metragem ganhou um prêmio especial do júri no Festival de Brasília daquele ano, e ali Babenco já impressionava pela segurança na direção.
A história de Tertuliano, vivido por Paulo José, no entanto, soa muito intimista perto do que seria a obra posterior do cineasta. Era como se ainda não estivesse perfeitamente adaptado ao seu novo país.
Ele se naturalizaria brasileiro em 1977, e os seus filmes seguintes, “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” e “Pixote: A Lei do Mais Fraco”, já anunciavam a ambição de fazer um cinema conectado a grandes audiências. Em ambos, tratava de personagens controversos e de grande apelo social —o policial Lúcio Flávio e o jovem infrator Pixote. Com isso, era como se associasse ideais do cinema novo a um fazer cinematográfico mais próximo do industrial.
Já se sentia ali um tipo de talento hollywoodiano, capaz de conciliar o êxito na bilheteria e a qualidade do artesanato. O que se confirmou em 1985, com a coprodução “O Beijo da Mulher Aranha”, em que Leonard Schrader adaptava o romance do argentino Manuel Puig.
William Hurt, Sonia Braga e Raul Julia lideravam o elenco internacional, num momento de sucesso mundial da literatura argentina. Ficava clara a intenção de buscar o mercado mundial, o que foi facilitado pelo Oscar de melhor ator entregue a William Hurt pelo trabalho no filme. Babenco já tinha um pé em Hollywood.
Nada mais previsível, portanto, que ele fosse visto como o grande talento hollywoodiano brasileiro e que fosse, então, contratado para trabalhar nos Estados Unidos. O resultado foi também previsível. Tanto “Ironweed”, de 1987, quanto “Brincando nos Campos do Senhor”, de 1991, estavam longe do ideal hollywoodiano.
“Ironweed” ainda concorreu ao Oscar com Jack Nicholson e Meryl Streep, seus atores, mas o drama do casal de alcoólatras, por mais sensível que fosse, estava longe de sensibilizar grandes plateias. E menos ainda “Brincando nos Campos do Senhor”, com a história do casal de evangelistas americanos que pretendem converter indígenas brasileiros à cristandade.
De volta ao Brasil, Babenco sofre com um câncer no sistema linfático, que se manifestara pela primeira vez em 1983. Foi submetido a um transplante de medula óssea e voltou a dirigir em 1998, com “Coração Iluminado”.
Rodado na Argentina, o filme teve inúmeros problemas de produção, devido à saúde do realizador. Ainda assim, a primeira metade pode ser vista como um dos momentos mais notáveis da carreira de Babenco.
Ele voltaria à ativa com “Carandiru”, de 2003, novamente uma produção em que apanhava no ar um fato relevante da vida brasileira, no caso, o massacre da Casa de Detenção de São Paulo, durante o governo de Luiz Antônio Fleury, que resultou na morte de nada menos que 111 detentos.
“Carandiru”, que tinha como base o livro de Drauzio Varella, colunista deste jornal, foi distribuído pela Columbia Tristar e chegou a quase cinco milhões de espectadores no Brasil, marcando fortemente a era iniciada com a criação da Ancine, a Agência Nacional do Cinema. Em seguida, voltaria à Argentina para dirigir “O Passado”, em 2007.
Após o casamento com a atriz Bárbara Paz, em 2010, Babenco dirigiria seu último trabalho, “Meu Amigo Hindu”, de 2015, em que Willem Dafoe interpreta o papel de um cineasta diagnosticado com câncer terminal.
Morreu em 13 julho de 2016, aos 70 anos, deixando as filhas Myra e Janka. Era naturalizado brasileiro desde 1977. Paz dedicou a ele o documentário “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, de 2019.




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