No dia 5 de setembro de 1972, o mundo como era conhecido mudou para sempre, com o nascimento da grande cobertura ao vivo pela televisão.
Não era o primeiro evento do tipo, título que fica com as 27 horas e meia em que a emissora KTLA californiana narrou a tentativa fracassada de resgatar a garotinha Kathy Fiscus, de três anos, de um poço em 1949.
Mas ali eram 20 mil TVs ligadas na região, ante os 900 milhões de espectadores via satélite da dramática tomada de 11 reféns israelenses por terroristas palestinos nas Olimpíadas de Munique, 23 anos depois.
“Setembro 5”, em cartaz nos cinemas, narra as dores desse parto de forma ágil e sóbria, provavelmente sua maior virtude. Aqui até há atitudes corajosas, mas longe de qualquer heroísmo hollywoodiano —produtores e repórteres são seres demasiadamente humanos, falhos e arrogantes.
As discussões acerca da ética jornalística em um trabalho executado sob extrema pressão são apenas pinceladas, restando saber se essa foi uma forma de o diretor suíço Tim Fehlbaum explicitar a ligeireza com que decisões às vezes são tomadas na vida real, ou se os meros 95 minutos do filme não foram suficientes para aprofundar a temática.
Tecnicamente, “Setembro 5” é primoroso, com uma reconstituição de época acurada, e dribla o atentado em si em tempos espinhosos de guerra em Israel. O espectador é apresentado às entranhas de um estúdio de TV montado na Vila Olímpica de Munique-72, com uma quantidade enorme de cabos, fitas, caracteres para serem colocados à mão para serem vistos na tela.
É bastante ilustrativo da revolução que vivemos hoje, quando basicamente todo aquele trabalho pode ser feito por uma pessoa segurando um bom celular. Jovens espectadores se perguntarão como chegamos até aqui, o que pode também ser bastante iluminador de aspectos éticos associados à prática jornalística.
No filme, eles são, como dito, tratados de forma expressa. Um diretor da rede ABC sugere que é cedo para usar o termo “terrorista” na cobertura sobre um ato terrorista evidente. O chefe de equipe questiona se irão transmitir mortes ao vivo. A polícia alemã tenta parar a transmissão que, sim, estava dando pistas de sua movimentação aos palestinos.
Não há aqui os debates expositivos dos filmes referenciais sobre o tema, como “Todos os Homens do Presidente”, “O Informante”, “Spotlight: Segredos Revelados” ou “The Post: A Guerra Secreta”. Por óbvio, há discussões ríspidas e em que a hierarquia dá a palavra final. Mas, como na transmissão ao vivo, não se perde muito tempo nelas.
A rapidez de tomada de decisões, inclusive com infrações como a confecção de uma credencial falsa para contrabandear fitas para os câmeras no perímetro fechado pela polícia durante o ataque, é bastante condizente com a realidade de Redações.
Da mesma maneira, os excelentes atores replicam de forma crível o pasmo ante a situação, particularmente a trinca de chefes em conflito, vivida por Peter Sarsgaard, John Magaro e Ben Chaplin, que por sua vez luta contra a desconfiança com que a direção da rede trata a equipe de esportes que assumiu a cobertura.
Também com verossimilhança é descrito a única personagem mais heroica, por assim dizer, do filme: a intérprete alemã a serviço da TV vivida por Leonie Benesch.
Tratada com desprezo por um editor judeu, que equivale as Olimpíadas a uma tentativa de lavagem de imagem do país do Holocausto, ela se mantém estoica e salva o dia diversas vezes, seja com tradução simultânea, seja com iniciativas de investigação que seus superiores americanos não têm.
Quase toda Redação tem alguém assim, à espera de uma crise para emergir. Ela trabalha com o coração pesado, ciente do que significa o massacre de judeus na cidade que viu Adolf Hitler surgir como figura pública.
Novamente, essa tensão política e a questão da imparcialidade na hora de reportar os fatos, batalhas diárias do jornalismo, permeia o filme, mas não é explorada. “Setembro 5” é um retrato crível e imperfeito, como o objeto sobre o qual se debruça.

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