Estreou neste mês no GloboPlay a série “Pablo e Luisão”, roteirizada, produzida, e encenada por Paulo Vieira. O comediante acertou ao retratar suas histórias familiares através de elenco global que inclui Ailton Graça no papel do pai Luisão, e Dira Paes como a mãe Conceição.
Pablo, interpretado por Otávio Müller, é o amigo que trabalha com o pai como salgadeiro artesanal e sempre mete a família nas piores enrascadas. Todos lutam para sobreviver com dignidade apesar da escassez material, sem perder a alegria de viver.
Foi em agosto de 2020 que Paulo Vieira começou a contar as histórias de Pablo e Luisão no Twitter. Criou um séquito de fãs das mirabolantes histórias dos dois trapalhões da vida real. Da cerca elétrica que deu choque em toda vizinhança ao velório onde tudo pode acontecer, cada história é narrada com graça e leveza pelo diretor João Gomez, em tocante sintonia com o idealizador.
Alguns episódios, como o sobre o cozinheiro Justino e aquele em que Pablo se apaixona pela mulher-gorila do circo, são ricos de significados. Sem nunca buscar a lacração, o roteiro mostra a diversidade das classes populares brasileiras em toda sua complexidade. Os pobres não são idealizados e nenhum personagem é santo. Rimos com eles, mas também deles. E nos sentimos um deles.
Paulo Vieira conseguiu algo bastante raro num país de discursos ideologizados. Falar da pobreza sem romantizar, mas também sem deixar de ter compaixão conosco, os brasileiros. São histórias de um Brasil profundo que arrebatam, fazendo da comédia uma forma superior de conhecimento, sem a pretensão frívola dos discursos chatos.
A série do GloboPlay faz parte de uma mudança na estratégia criadora do audiovisual brasileiro. A ideia de “Pablo e Luisão” não surgiu dentro do escritório gelado de um roteirista global. Boas histórias estão em todos os lugares, até no Twitter, e a Globo percebeu isso.
Não é a primeira vez que a emissora abriga ideias surgidas na internet. A série “Eu, a avó e a boi” (2019) também surgiu através de posts engraçados no Twitter. Mas ali a narrativa foi apropriada pelo roteiro de Miguel Falabella, que trouxe os vícios de sempre da TV aberta, erro do qual a série de Paulo Vieira passa longe.
Outro aspecto interessante de “Pablo e Luisão” é que a série tem como personagem central uma família bem brasileira. Não apenas na cor dos atores, nem somente pelo linguajar e na ambientação.
A família Vieira é mais uma das muitas que não cabem no rótulo da família tradicional de propaganda de margarina. A relação entre Luisão, Pablo e Conceição é a de um trisal, embora não sexual, mas afetivo. Rola carinho e afeto de todas as partes. E também, como não poderia deixar de ser, rola raiva, ódio, repulsa e risos.
No último episódio, o personagem de Paulo Vieira, crescido e famoso, retorna a sua natal Palmas para o velório de um tio. É quando o inconveniente Pablo lhe pede para gravar um vídeo de propaganda para um de seus trambiques: “Não me fala que tem que falar com empresário, que eu te criei!”, argumenta o agregado da família Vieira. Pablo é o emblema das famílias alternativas brasileiras. Quantos de nós não foram criados por amigos dos pais, avós, tias, padrinhos, madrastas, padrastos e tantos outros parentes possíveis nas diversas configurações familiares brasileiras, especialmente nas classes populares?
Ao fim de cada episódio os verdadeiros Luisão, Pablo e Conceição comentam a historia surreal do roteiro. No derradeiro capítulo o verdadeiro Pablo diz emocionado, abraçado por Conceição: “Família é isso, não precisa ser do mesmo sangue”.
Paulo Vieira acerta em cheio ao retratar a alma familiar brasileira.
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