Um assunto frequente desta coluna é a ausência de política de memória musical no Brasil. Somos pouco afeitos à preservação de nossa história musical. Não temos sequer um museu da bossa nova no Rio de Janeiro, o que dá dimensão de nossas lacunas. Afinal, onde estão o piano de Tom Jobim ou o violão de João Gilberto?
Se nem a bossa nova consegue seu lugar ao sol, o que dirá outros gêneros menos contemplados pelos profissionais da memória. E não adianta culpar apenas o Estado pela ausência de exposições ou museus. A iniciativa privada também parece pouco motivada a investir na memória, o que ilustra a tacanhez de nossos empresários pouco ilustrados.
Trata-se de um problema nacional. Caruaru, em Pernambuco, se auto intitula “a capital do forró”. Mas o museu em homenagem a Luiz Gonzaga que existe na cidade está fechado. O fã do rock gaúcho dos anos 1980, movimento tão incensado no imaginário regional pelos porto-alegrenses, não tem o que visitar na capital do Rio Grande do Sul. Em Parintins, no Amazonas, fora da época de festejos do boi, quase nada há para o turista ver. Um museu está sendo construído, sabe-se lá quando ficará pronto.
O mesmo acontece em Goiânia. A autointitulada “capital do sertanejo” não tem um museu do gênero. Já escrevemos sobre isso quando falamos sobre a ausência de um museu para Marília Mendonça.
Por tudo isso é espantoso que, na capital sertaneja, tenha surgido uma iniciativa que visa dar conta dessa lacuna.
Foi inaugurada em 13 maio a exposição “Não Vou Negar: Artes visuais, Território e Música Sertaneja” no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás, que permanece até dia 28 de junho em cartaz. O título da exposição faz referência ao primeiro verso de “É o amor”, clássico de Zezé Di Camargo & Luciano de 1991.
A mostra reúne trabalhos de 30 artistas, em sua maioria radicados em Goiás, compondo um retrato da sonoridade e contradições da música sertaneja. Entre os destaques estão obras de artistas reconhecidos como Siron Franco, Antônio Poteiro, Nazareno Confaloni e Octo Marques, e jovens talentos como Benedito Ferreira, Emilliano Freitas, Cássia Nunes e Verônica Santana.
A dupla Camila & Thiago, irmãos naturais de Firminópolis (GO), fez a trilha sonora da abertura. A curadoria é assinada por Paulo Duarte-Feitoza, pesquisador e professor da Faculdade de Artes Visuais da UFG.
O mais espantoso da exposição é ter conseguido montar a exibição dentro da universidade pública, um espaço que quase sempre alimenta o desprezo da elite intelectual brasileira por gêneros musicais populares. Se as direitas embrutecidas não se interessam por museus, as esquerdas acadêmicas muitas vezes desprezam a realidade transbordante, caindo no elitismo que tanto criticam.
“Não Vou Negar” supera tal autoengano. A exposição foi montada “na raça”, já que foi submetida a leis de incentivo de Goiás, mas não aprovada. Mais uma vez o descomprometimento com as políticas da memória que falamos no início fica evidente. Talvez por ser uma exposição independente, que não buscou bajular nenhum artista poderoso, o financiamento tenha se tornado mais difícil.
Heroicamente, a exposição foi montada com ajuda da sociedade civil, na base do escambo cultural e da autoajuda. Sem as bênçãos da cultura hegemônica, mas sem negar o amor pelo contraditório da cultura massiva, os artistas olham com carinho e de forma respeitosa para a cultura sertaneja popular, aceitando-a como sua.
Descer do pedestal é difícil. Flertar com as contradições do presente ainda mais. Fotografias, pinturas e instalações dos artistas goianos mostram que é possível dialogar com as massas e construir caminhos estéticos que aproximem a intelectualidade do povo, sem submissão de nenhum dos polos, mas admitindo a diferença como uma das grandes forças de nossa cultura.
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