No dia 2 de janeiro um dos mais famosos cantores sertanejos do Brasil, Gusttavo Lima, declarou intenção de se candidatar à Presidência. No dia 4 um conhecido geógrafo e comentarista político da imprensa brasileira, Demétrio Magnoli, afirmou no programa Estúdio i da GloboNews desconhecer o cantor.
Gusttavo Lima tem mais de 15 anos de carreira. Sua música “Balada Boa” foi sucesso internacional em 2012, no rastro de “Ai Se Eu Te Pego”. O cantor tem mais de 45 milhões de seguidores no Instagram.
Recentemente Gusttavo Lima esteve envolvido em acusações acerca de casas de apostas. Anos atrás ele foi o centro das polêmicas sobre shows milionários pagos por prefeituras de municípios paupérrimos do interior. Em plena campanha de 2022, o cantor foi o mestre de cerimônia de artistas sertanejos que visitaram Bolsonaro e defenderam o presidente golpista.
Mas nada disso é suficiente para Demétrio, que disse para apresentadora do programa, Andrea Sadi, que tentava apresentar o cantor ao intelectual: “Eu continuo sem saber quem é Gusttavo Lima e prefiro não saber. Não precisa me explicar”. Diante da insistência da apresentadora, ele completou: “A minha turma é o rock, jazz, MPB“. Do outro lado, muitos defensores de Gusttavo Lima se perguntaram quem seria Demétrio Magnoli na fila do pão.
Magnoli é verdadeiramente um grande intelectual, corajoso e ousado, sem medo da polêmica. Embora se defina como social-democrata, Demétrio é com frequência injustamente espinafrado como “direitista” pelas esquerdas tradicionais. O intelectual tinha tudo para não ser o espantalho que se tornou entre os fãs sertanejos direitistas que Gusttavo Lima tão bem representa. Ambos fazem a crítica a um esquerdismo infantil brasileiro.
Mas nada supera o ranço de lado a lado. Quando se trata de música brasileira, Demétrio reproduz a mesma aversão ao sertanejo que se vê nos setores “meio intelectuais, meio de esquerda”, feliz expressão de Antonio Prata.
O curioso é que Magnoli não está sozinho. Em 1985 o grande Celso Furtado, pai do desenvolvimentismo brasileiro, era ministro da Cultura quando a dupla Milionário & José Rico apareceu em sua sala pedindo ajuda do governo para uma excursão pela China. O governo chinês propunha enviar a Orquestra Sinfônica de Pequim para uma excursão ao Brasil em troca dos sertanejos. Acreditem, isso aconteceu! Celso Furtado negou ajuda estatal e disse que desconhecia a dupla. Para o ministro paraibano, a música sertaneja seria aquela feita por Luiz Gonzaga, não aqueles ETs que brotaram na sua frente.
Em 2015, quando da morte do cantor Cristiano Araújo, o apresentador Zeca Camargo afirmou que não sabia quem era o sertanejo e não compreendia tamanha comoção. Foi cancelado e resolveu pedir desculpas, cometendo uma nova gafe, ao trocar o nome do cantor pelo do jogador Cristiano Ronaldo.
É lamentável que o Brasil siga vivendo tal abismo cultural. Se muitas vezes os sertanejos primam pelo populismo tacanho e pela mediocridade, o que se vê do outro lado é a apologia da ignorância.
O Brasil só voltará a se reencontrar consigo mesmo quando Demétrio Magnoli e Gusttavo Lima se reconhecerem como parte de um mesmo país. Essa é a polarização mais difícil de acabar.
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