Opinião – Gustavo Alonso: O Labubu da MPB

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Opinião – Gustavo Alonso: O Labubu da MPB


Você já ouviu falar dos Labubus? Inspirados em contos de fadas nórdicos, estes mascotes infantilizados rapidamente viraram obsessão mercadológica frívola. Com cara de boneca, orelhas de coelho e dentes pontiagudos como se fossem monstros, os Labubus de pelúcia viraram adereços dos famosos. Artistas como Rihanna e Dua Lipa já se deixaram fotografar com o mascote.

No Brasil, a atriz Marina Ruy Barbosa e a influencer Virgínia Fonseca aderiram à moda do boneco esquisito pendurado na bolsa. É um mimo caro, visto que as versões mais raras dos Labubus podem ultrapassar os R$ 5.000. Atento à oportunidade, o mercado pirata já inventou o seu “Tribufu”, boneco vendido em ruas de comércio popular pelo país.

Em meio a onda de bebês reborn, não foram poucos os que acusaram as celebridades de consumismo e infantilização. Mas a verdade é que essa fetichização não é nova na cultura pop e até a nobre MPB já foi refém dos Labubus de sua época. Quem se lembra do boneco Mug?

O Mug foi uma jogada publicitária da indústria de roupas e brinquedos no ano de 1966. Tratava-se de um boneco de pano de uns 20 centímetros, preto, cabelos vermelhos, calça xadrez, mãos e pés enormes, longos e desajeitados braços.

O Mug era o mascote da marca de roupas da Indústria Santa Basilissa. A intenção dos publicitários da H.B. Promoções era competir com a Jovem Guarda. A campanha daquele simples brinquedo ganhou ares apoteóticos e tornou-se febre comercial quando artistas entraram na campanha confirmando que o boneco “dava sorte”.

Uma propaganda dizia que ele possuía estranha força, atuando “desde tempos imemoriais”, e que o faraó Ramsés 2º e o rei Salomão tiveram um Mug. No sentido oposto, o Brasil teria perdido o tricampeonato na Copa de 1966 porque nenhum jogador levou o boneco para a Inglaterra.

Em pouco tempo o Brasil inteiro ficou conhecendo o Mug. Ele apareceu nos quadrinhos de Maurício de Sousa (o criador da Turma da Mônica); no jornal Última Hora, ao lado das “certinhas” do colunista Stanislaw Ponte Preta; na televisão, divulgado por Wilson Simonal e Jô Soares. O cantor Wilson Simonal aparece na capa do seu disco de 1966, “Vou Deixar Cair”, ao lado do boneco.

Simonal, por sinal, era um dos mais envolvidos nesse jogo publicitário e chegou a lançar a canção “Samba do Mug”, de sua autoria e de José Guimarães: “Se você não acredita eu não posso fazer nada/ Mas a figa tem um Mug dentro da mão bem fechada/ E agora pra provar que o Mug que é o quente/ Vou dar-lhe o Mug de presente/ Olha o Mug!/ Mas que segurança!”

Poucos se lembram que Chico Buarque foi receber o prêmio pelo primeiro lugar do Festival da Record de 1966 com o boneco Mug na mão. Naquela oportunidade ele ganhara o festival com “A banda”, canção que levou instantaneamente o jovem de 22 anos ao estrelato.

À jornalista Regina Zappa Chico Buarque comentou sobre o Mug: “Tenho um pouco de vergonha disso, mas é verdade. Eu andava com o Mug e dizia que o Mug dava sorte. Aí venderam uma porção de Mugs.”

Além de divulgar o boneco na televisão, Chico Buarque também fez propaganda do Mug em seu LP de 1966. Na contracapa do disco, onde faz um balanço das músicas e agradece aos parceiros de gravação, o boneco foi citado: “Quanto à gravação em si, o Mug assistia a tudo com santa seriedade”, escreveu Chico.

Aumentando a fama do boneco, Chico foi à polícia, em 26 de outubro de 1966, denunciar que seu Mug tinha sido roubado do carro de um amigo. Conforme noticiado no jornal O Globo, os ladrões levaram rascunhos da partitura de um samba novo e o boneco.

Um Chico menos afeito às disputas com a ditadura e empolgado com os aspectos mercadológicos da arte, lamentava: “O pior de tudo é que levaram também o meu Mug de estimação, que me dava uma sorte louca. Para mim era ouro de lei e dele nunca me separava. Daria tudo para recuperá-lo o mais depressa possível. Não sei o que é patuá nem tenho santos de minha devoção. Só tenho fé no meu Mug e por isso quero reavê-lo. Para isso, estou disposto a dar ao ladrão uma boa recompensa.”

Em novembro de 1966, Chico ainda estava aficionado pelo amuleto e carregou um Mug num voo para Curitiba, segundo noticiou o jornal O Estado do Paraná: “Viajar de avião não é coisa para mim e é preciso estar prevenido, não acha?”, disse um amedrontado futuro gênio da música brasileira.

A MPB não passou incólume aos amuletos infantilizados de sua época. O Mug era o Labubu da cultura pop dos anos 1960.


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