Na semana que termina a Festa de Peão de Barretos, vemos a institucionalização cada vez maior da canção “Evidências” como uma grande canção brasileira. Mas nem sempre ela foi aceita nesse panteão, como já mostrei aqui nesta Folha.
Foi em 2023 que escrevi sobre a crescente institucionalização da canção como “hino nacional” informal do Brasil do século 21.
A música sertaneja vem cada vez mais adentrando um lugar de respeitabilidade. Os sertanejos sempre tiveram sucesso popular, mas não adentravam os lugares de prestígio da crítica musical. Aos poucos este muro vem sendo corroído.
Simbólico desta transição são as listas de melhores discos e músicas brasileiras. Até pouco tempo atrás nunca havia uma música ou disco sertanejo entre os melhores da música brasileira.
Em 2003, a Revista MTV perguntou a 52 jornalistas, artistas e experts da área musical brasileira quais os melhores discos lançados no Brasil em todos os tempos. Nenhum disco sertanejo foi classificado entre os 100 melhores.
Na lista “100 Maiores Discos da Música Brasileira” produzida em 2007 pela revista Rolling Stone, zero sertanejos foram contemplados. Tampouco havia sertanejos na lista das “100 Canções Essenciais da MPB” da Revista Bravo, de 2008. Em 2009, a Rolling Stone publicou uma edição especial com as 100 maiores músicas brasileiras de todos os tempos. Nenhum sertanejo foi selecionado.
Já em outubro de 2012, a revista publicou a lista “As 100 maiores vozes da música brasileira”. Um ranking de 60 especialistas da crítica musical não considerou uma voz sertaneja sequer entre as cem mais memoráveis de nossa história. É como se José Rico, Zezé di Camargo, Matogrosso e Paula Fernandes não existissem no país.
Em 2017, a publicação elegeu “Os 100 Maiores Momentos da Música Brasileira”. A revista selecionou personagens e eventos que transformaram a música feita no país. Nada de sertanejos. Parece até que não viram o sucesso mundial de Michel Teló com “Ai Se Eu Te Pego” em 2012.
Mas o mundo gira.
Em 2022 foi feita a lista dos “500 maiores discos da música brasileira”, eleitos pelo podcast Discoteca Básica, sob coordenação do jornalista Ricardo Alexandre. O jornalista ouviu 162 especialistas de diferentes áreas. A pesquisa, publicada em livro, trouxe uma grande novidade: o disco de Chitãozinho e Xororó, “Cowboy do Asfalto”, que contém “Evidências”, aparece na 281ª posição. Recentemente, o jornal O Globo fez uma lista das “100 melhores músicas de 1925 a 2025”. “Evidências” apareceu em 28º lugar e “É o amor”, em 64º.
Desde que escrevi meu artigo em 2023, “Evidências” vem galgando cada vez mais espaço entre formadores de opinião e personagens influentes da sociedade brasileira.
Em 2024, o filme “Evidências do Amor”, com roteiro baseado na canção e protagonizado por Fabio Porchat e Sandy, fez bastante sucesso. Semana passada, o governador do Rio, Claudio Castro, surpreendeu políticos e empresários ao cantar “Evidências” a plenos pulmões em jantar no Palácio Guanabara, na presença do ministro Alexandre de Moraes como um dos convidados.
Para se ter uma ideia da transformação de 180º graus, cabe lembrar que, em 2006, Luiz Paulo Conde foi empossado secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Conde já fora prefeito da cidade do Rio (1997-2001) e vice-governador (2003-2007). Como secretário de Cultura, ele deu a seguinte declaração: “Gosto de música de qualidade, seja popular ou erudita. Tudo menos Sula Miranda e Chitãozinho & Xororó. Essas coisas passam ao largo para mim, não quero nem saber.”
Para desgosto de Conde, o Rio de Janeiro tem sido o palco da institucionalização cada vez maior da música sertaneja. No sábado (23), a seleção feminina conquistou uma medalha de prata inédita no Campeonato Mundial de Ginástica Rítmica, disputado pela primeira vez na América do Sul, no Rio.
A primeira apresentação da equipe brasileira, na série mista —com o uso de três bolas e dois arcos— foi embalada por “Evidências”, e levantou a torcida da Arena Carioca 1, no Parque Olímpico do Rio.
“Evidências” ilustra um caso curioso de uma canção que ganha mais legitimidade à medida que o tempo passa. E a música sertaneja começa a ocupar espaços de legitimidade antes inacessíveis.
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