Opinião – Gustavo Alonso: Brasília, os evangélicos e os sertanejos

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Opinião – Gustavo Alonso: Brasília, os evangélicos e os sertanejos


O recente filme da diretora Petra Costa, “Apocalipse nos Trópicos”, chegou à Netflix. Tem como foco a ascensão evangélica nos últimos 50 anos, mas simplifica o fenômeno de diversas formas.

Petra Costa aposta que a ascensão evangélica é uma traição ao projeto modernizante de Brasília. Depois de mostrar bonitas cenas da construção da cidade, o filme polariza a cidade moderna a evangélicos pregando no Congresso Nacional.

Desde seu filme anterior, “Democracia em Vertigem”, a narrativa de Petra é a de uma intelectual orgânica do petismo, por mais contraditório que seja uma neta de empreiteiro ser o microfone das esquerdas. Ou talvez não.

As simplificações do filme são várias. O apagamento de séculos de catolicismo tão ou mais conservador que os evangélicos, por exemplo, a preferência por pastores midiáticos como condutores da narrativa e o desprezo pela imensa fragmentação das igrejas tornam o filme no mínimo problemático. Mas a simplificação que mais incomoda é a narrativa idealizada sobre Brasília.

Também encontrei esta narrativa no artigo “O mar virou sertão”, escrito por Fernando de Barros e Silva, que foi capa da revista Piauí de junho, no qual se contrapõe o agro à Brasília. Barros e Silva assina como colaborador de roteiro em “Apocalipse nos Trópicos”. Mas será que Brasília é mesmo isso que idealizam Barros e Silva e Petra Costa?

Petra denuncia em seu filme que a intenção inicial dos projetistas da cidade era construir uma igreja ao lado do Palácio do Planalto. No entanto, a diretora não problematiza o fato de que a catedral de Brasília foi erguida em plena Esplanada dos Ministérios.

Lula comandou a nação entre 2002 e 2010, e agora novamente, com uma enorme escultura de um Jesus crucificado em seu gabinete. Os dois ministros do STF e o procurador-geral indicados por Lula se disseram católicos e contra o aborto em suas sabatinas.

Em 26 de novembro de 2024 o Plenário do STF decidiu que a presença de símbolos religiosos, como imagens e crucifixos em prédios e órgãos públicos, não fere a laicidade do Estado. Será? O efetivo republicanismo laicizante nunca esteve presente em nossa capital. Nem entre direitas, nem esquerdas.

Pode-se dizer que Brasília cumpriu seu papel: conseguimos interiorizar o país. A força do agro é fruto de várias conjunturas históricas, mas também dessa intenção.

O agro, apesar de todo o mal que acarretou, deslocou a agricultura brasileira para a modernidade capitalista, mostrando-se uma opção às plantations do litoral, historicamente ligadas ao trabalho escravo ou semi escravo e à baixa produtividade. O agronegócio é a aplicação da tecnologia associada ao campo aliada às pesquisas da Embrapa para transformar o solo do cerrado brasileiro.

Não era a única modernidade possível. Mas escolhemos essa modernidade evangélico-agrária com intensa participação das esquerdas que Petra quer isentar.

Por muito tempo o lulismo foi íntimo do agro e dos evangélicos. Zezé Di Camargo já foi cabo eleitoral de Lula em 2002. Dilma (presidente), Alckmin (governador) e Haddad (prefeito) estiveram na inauguração do gigantesco Templo da Universal no bairro do Brás em São Paulo em 2014. Kátia Abreu foi Ministra da Agricultura e uma das maiores defensoras de Dilma contra o impeachment. E o comunista Niemeyer projetou a arena de rodeio de Barretos.

A idealização de Brasília é o que resta a uma esquerda intoxicada, que se congratula em implodir pontes com a sociedade e se esmera em cultivar o ódio do qual é refém. Os sertanejos, o agro e os evangélicos têm muitos problemas. Mas não é diabolizando-os que iremos compreender o Brasil do século 21.


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