A recente visita do cantor porto-riquenho Bad Bunny ao Brasil parece ter despertado nos comentaristas de internet a ideia de que nós, brasileiros, finalmente estaríamos recuperando nossa maltratada latinidade.
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Bad Bunny realizou dois shows no Allianz Park na semana passada, menos de um mês após a apresentação do cantor na final do campeonato americano de futebol americano, o Super Bowl. Sem nem sequer analisar a qualidade das canções do porto-riquenho, muitos se encantaram com sua retórica anti-Trump. Empolgados com o discurso político, viram no cantor a possibilidade de o Brasil, citado por Bunny em sua apresentação no SuperBowl, se reconectar musicalmente com a América Latina.
Respondendo às críticas de que o Brasil teria “má vontade com a América Latina”, o imortal Ruy Castro argumentou nesta Folha que nem sempre o Brasil esteve de costas para nossos hermanos. Ruy lembrou que o Brasil já ouviu muito Carlos Gardel, que as vitrolas brasileiras já tocaram muito a orquestra de Francisco Canaro e que Caetano Veloso já gravou tangos como o clássico “Cambalache” em 1969.
Ruy recordou que grandes cantores latinos como Pedro Vargas, Gregorio Barrios, Tito Guizar, Libertad Lamarque, Elvira Ríos e o Trio Los Panchos, o cubano Bienvenido Granda e o chileno Lucho Gatica fizeram sucesso no Brasil. Rumbas, mambos, salsas, merengues tocavam nas rádios brasileiras. E lembrou que de 1920 a 1970 vários artistas brasileiros foram influenciados pela música latina. Foi o caso da Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, e de cantores de vozeirão como Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira, que gravaram muitos tangos em espanhol. O Trio Irakitan e Altemar Dutra também gravaram os boleros.
Mas, para além do que demarcou Ruy Castro, a influência da música latina em nossa cultura não parou nos anos 70. O que diminuiu foi o reconhecimento desta influência. Talvez porque gradualmente nossa herança musical latina começou a ser associada à breguice e ao melodrama exagerado. E os cantores que prosseguiram inspirados na música latina foram chamados de “bregas”.
É o caso de Agnaldo Timóteo, que gravou tangos como as lindas “Eu pecador” e “Tango para Teresa”, este último com Ângela Maria. Cantores como Cláudia Barroso, Carmen Costa, Waldick Soriano, Lindomar Castilho, Núbia Lafayette e Evaldo Braga gravaram muitos boleros, gênero musical tão influente quanto belo.
Antes de ser uma palavra que descrevia um tipo de música, brega era um rótulo depreciativo. Associar-se a latinidade era, aos olhos das elites culturais brasileiras, ser “atrasado”, “cafona” e “popularesco”.
Quem mais deu prosseguimento a esta vertente latina no Brasil foi a música sertaneja. “Estrada da vida”, o maior sucesso de Milionário & José Rico, é uma rancheira. José Rico falava trechos em espanhol nos discos, imitando o cantor hispânico que mais gostava, Pedro Aceves Mejía.
E o que dizer de Pedro Bento & Zé da Estrada, que se apresentavam vestidos de mariachis mexicanos? “Fio de cabelo”, um clássico de Chitãozinho & Xororó, é uma guarânia paraguaia. Também é uma guarânia o sucesso “Ainda ontem chorei de saudade”, bela canção de João Mineiro & Marciano. “Vai com Deus”, de Roberta Miranda, “Falando às paredes”, do repertório de Chitãozinho & Xororó, e “Você vai ver”, cantada por Zezé Di Camargo & Luciano, são bolerões abrasileirados pelos sertanejos.
Mais recentemente, a geração do sertanejo universitário deu prosseguimento a esta influência latina: Jorge & Mateus gravaram o lindo chamamé “Pra ter o seu amor” e João Bosco & Vinícius, “Mudar pra quê”. Luan Santana gravou vários reggaetons na carreira, como “Check in”, “Mamita” e “Acordando o prédio”. E Marília Mendonça, a rainha da sofrência, tinha em “Infiel” um bolerão de marca maior.
Marília também gravou “Cumbia do amor”, emulando o gênero colombiano de muito sucesso no mundo. Gusttavo Lima também já gravou uma cumbia, a canção “Vagabundo”, em parceria com outro porto-riquenho, Luis Fonsi, que há alguns anos atrás era o cantor mais famoso da ilha.
Bad Bunny só estará reatando nossos laços com a música latino-americana se nos restringirmos ao gosto estético de nossas classes médias e altas das capitais do Sudeste. O Brasil profundo nunca deixou de ser latino-americano até a alma.
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