Opinião – Guilherme Wisnik: Monolítico, novo prédio do Masp revê atualidade do edifício original

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião – Guilherme Wisnik: Monolítico, novo prédio do Masp revê atualidade do edifício original


Muitos discutem se gostam ou não da aparência do novo edifício anexo do Masp. A discussão é ociosa, e mostra as virtudes do projeto. Nem mesmo o prédio original de Lina Bo Bardi chega a ser uma unanimidade.

Tendo um acervo grande e crescente, além de uma visitação imensa, e uma carência de áreas técnicas, o Masp precisava de uma extensão. O edifício ao lado, doado ao museu no início dos anos 2000 para tal objetivo, tinha dez pavimentos.

De uso residencial, era construído em estilo art déco, com balaustradas nas sacadas e cor bege. O projeto do anexo, assinado por Martin Corullón e Gustavo Cedroni, do Metro Arquitetos, mais do que reforma o edifício. Ele o reduz a um esqueleto estrutural de concreto armado, e acrescenta a ele uma nova estrutura compósita, de aço e concreto, aumentando significativamente a sua altura.

Além disso, lhe dá uma nova pele, feita de chapas metálicas perfuradas na cor grafite, que permitem um bom controle de luz, bem dosado entre a veladura e a translucidez.

Muito importante, nesse caso, era a criação de um volume monolítico e abstrato, cuja linguagem formal não competisse com o prédio principal do museu, mas que, ao mesmo tempo, tivesse um caráter forte, uma identidade nítida.

Para tanto, deveria se buscar uma solução uniforme, que evitasse o desenho compositivo e arbitrário de fachadas com janelas, alternando cheios e vazios. Essa é, aliás, uma das características fundamentais do Masp de Lina: trata-se de um volume regular, puro, todo de vidro, modulado pelos caixilhos pretos que vão do piso ao teto.

Para adequar o despojado projeto da arquiteta italiana às exigências de controle de fluxo, com sensores de revista e longas filas, o museu havia improvisado, há muitos anos, uma canhestra barreira de painéis, que conformavam uma espécie de saguão de entrada bloqueando parte do vão livre, no piso térreo.

Agora, no entanto, todo o controle de público será feito pelo novo edifício, cujo amplo “foyer” se conecta, por uma passagem subterrânea, ao subsolo do edifício principal, onde se pode acessar, por elevadores, todos os pisos. Com isso, o vão livre do Masp estará liberado, em toda a sua integridade, para atividades públicas e programas do museu, incluindo performances e instalações.

Quase dobrando a área útil do museu original, o novo conjunto agora é formado por um prisma horizontal, suspenso do chão (e com um grande subsolo encaixado no desnível do terreno), e uma torre vertical. E, por um capricho do destino, dosado pela precisão sutil dos arquitetos, a volumetria da nova torre corresponde em dimensão –vista em elevação– à do prisma original.

Em outras palavras, é como se o paralelepípedo de Lina tivesse tombado e girado noventa graus, ganhando uma austera pele metálica cinza escuro.

Símbolo de São Paulo, o Masp é um patrimônio da nossa cultura. Sua extensão, desenhada pelos arquitetos do Metro, ao mesmo tempo que presta homenagem a esse símbolo, criando uma espécie de fundo neutro para ele, afirma a sua contemporaneidade radical –daí o incômodo que causa para alguns.

Um prisma perfeito, abstrato, que não se reduz a uma leitura representacional, que tenha como base a medida do nosso corpo, ou a figuratividade de janelas ou elementos estruturais –esses últimos, aliás, a grande marca de estilo do Masp de Lina.

Há algo de metafísico nesse monólito, que contrasta com o expressionismo brutalista do edifício original, não por acaso pintado de vermelho. Evitando o heroísmo técnico, o prédio contemporâneo reforça a ambiguidade perceptiva, parecendo mudar de consistência entre a noite e o dia, quando as salas se acendem, e a opacidade se transforma em transparência. Assim, o diálogo com o patrimônio, ainda que respeitoso, não é subserviente. Temos um novo marco arquitetônico na cidade, à altura do nosso tempo.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *