O Festival de Veneza deste ano começou envolto em controvérsias e terminou em clima de constrangimento e decepção. O Leão de Ouro concedido a “Father Mother Sister Brother“, do americano Jim Jarmusch, foi visto por muitos como um gesto político anti-Palestina por parte do júri —ou, na melhor das hipóteses, uma postura acovardada de seu presidente, o cineasta Alexander Payne.
Afinal, o longa amplamente favorito, “The Voice of Hind Rajab”, da tunisiana Kaouther Ben Hania, falava das mortes proporcionadas por Israel no atual conflito em Gaza, se posicionando claramente em oposição aos atos do governo de Binyamin Netanyahu.
Dias antes do começo, o festival já havia sido duramente criticado por profissionais do audiovisual pró-Palestina, que exigiam mais engajamento político no discurso oficial da presidência do evento. O filme de Hania era o único na disputa a lidar diretamente com as atrocidades promovidas por Israel em Gaza, recebendo aplausos emocionados ao fim de cada sessão, com ampla adesão da imprensa e do público. Poucas vezes um filme chegou à cerimônia de premiação com tanto favoritismo.
Mas o júri de Payne, que tinha a brasileira Fernanda Torres entre os membros, preferiu fugir de qualquer mal-estar que um prêmio a um filme condenando Israel eventualmente pudesse causar. Evitando, inclusive, problemas com o poderoso lobby judaico no audiovisual, especialmente em Hollywood.
Mas a vitória do filme de Jarmusch é problemática por vários outros motivos. É uma obra extremamente irregular, que se dedica a praticamente apresentar algumas situações sem jamais ter substrato para gerar um pensamento frutífero sobre o que está na tela.
É um filme sobre relações familiares, dividido em três episódios, sendo os dois primeiros bem parecidos, mas com o terceiro destoando bastante em foco e em tom. O primeiro episódio mostra dois irmãos em visita ao pai, numa casa distante. O segundo apresenta uma mãe que recebe duas filhas para tomarem chá em sua casa. E o terceiro mostra dois gêmeos relembrando os pais, pouco depois de eles morrerem.
Alguns trechos são divertidos, mas Jarmusch nunca parece ter muita certeza do que ele mesmo quer dizer com o filme, que parece estar constantemente saindo dos trilhos —quase flutuando. Ele até salpica pelos episódios alguns elementos repetidos para dar impressão de unidade, ou de relação entre os trechos —um relógio Rolex, alguns jovens andando de skate, um antigo ditado britânico. Mas eles não significam absolutamente nada, e o filme parece nunca chegar a lugar nenhum.
Premiar a obra, além de um disparate estético e de falta de coragem política, soa como patriotada —já que Payne é americano como Jarmusch— e tem um evidente aspecto de prêmio pelo conjunto da obra. Diretor de filmes como “Daunbailó”, de 1986, e “Paterson”, de 2016, Jarmusch é um cineasta muito querido, mas que ainda não tinha na prateleira um prêmio principal de um grande festival. Agora tem —mas um dos menos merecidos de que se tem notícia.
“The Voice of Hind Rajab” levou a segunda láurea mais importante, o Grande Prêmio do Júri, um evidente troféu de consolação. O júri errou, também, ao premiar Benny Safdie, outro americano, como melhor diretor por “The Smashing Machine”, que embora seja um filme competente, é talvez o trabalho menos notável do cineasta, que junto do irmão Josh Safdie já fez obras de altíssima qualidade, como “Joias Brutas”, de 2019.
O prêmio especial do júri ficou para o belo documentário “Sotto le Nuvole”, do italiano Gianfranco Rosi, sobre o Vesúvio, os habitantes da região de Nápoles e sua história. Um prêmio talvez acertado, embora outras obras mais vigorosas estivessem na briga.
O prêmio de melhor ator foi um grande acerto, talvez o maior da noite. Toni Servillo ganhou por “La Grazia”, de Paolo Sorrentino, em que vive um fictício presidente da Itália em seus últimos dias de governo. Já o prêmio de melhor atriz trouxe mais uma surpresa, sendo entregue à chinesa Xin Zhilei, pelo drama “The Sun Rises on Us All”, de Shangjun Cai. Ela interpreta uma mulher que reencontra um antigo amante depois de anos separados. A favorita era a franco-italiana Valeria Bruni Tedeschi, de performance muito mais interessante em “Duse”, de Pietro Marcello.
Tirando o filme de Hania, o único outro longa de caráter mais político a ser premiado foi a produção francesa “À Pied d’Oeuvre”, que ganhou o troféu de melhor roteiro. Fala sobre subemprego no mundo atual, a partir da história de um escritor que precisa trabalhar em serviços mal remunerados para conseguir pagar as contas.
Num ano em que a seleção trouxe diversos longas de tema mais gritantes, é muito pouco ter apenas esses filmes premiados. Veneza falou de desemprego em tempos de capitalismo selvagem na comédia ácida “No Other Choice”, do sul-coreano Park Chan-wook, um dos filmes mais criativos e engraçados do evento, que saiu sem prêmios.
Também em brancas nuvens ficou “Casa de Dinamite”, da americana Kathryn Bigelow, uma fantasia sobre armamentismo em que um míssil nuclear está prestes a cair em território americano sem que as autoridades tenham alguma ideia de quem promoveu o ataque.
E ainda havia “The Wizard of the Kremlin”, do francês Olivier Assayas, que versa sobre totalitarismo, narrando como o atual presidente da Rússia, Vladimir Putin, conseguiu se tornar o homem mais poderoso do país, tendo começado a carreira como agente do serviço secreto soviético, a KGB. Mesmo tema abordado no excelente “Orphan”, do húngaro László Nemes, falando do mundo de hoje ao mostrar a Hungria nos anos 1950, muito influenciada pelo governo soviético da época.
A programação desta 82ª edição trazia filmes relevantes e condizentes com o estado geral de inquietação com o presente e o futuro do mundo. Em 2025, a preocupação política parece inseparável de qualquer aspecto da vida das pessoas, que hoje exigem posicionamentos sem meias palavras. Nesse sentido, o júri deste ano se mostrou lamentavelmente descolado do zeitgeist.

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