Opinião – Erika Palomino: Temporada masculina reage ao pessimismo com muita cor em Paris

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Opinião – Erika Palomino: Temporada masculina reage ao pessimismo com muita cor em Paris


Contra o pessimismo, a guerra, os números das vendas caindo, a moda reage com desfiles poéticos, em coleções comerciais e muitas roupas coloridas nas passarelas. A receita do otimismo não costuma falhar e na temporada masculina internacional, encerrada neste domingo em Paris, não foi diferente.

De Milão, como sempre, a Prada foi um farol. Desfilou com horas de distância entre os ataques americanos às bases iranianas, e tanto profissionais quanto observadores da moda se viram diante de um momento em que tudo aquilo poderia parecer dissociado da realidade.

O trumpismo ventou para outros lados e o mundo ainda não se acabou. Mas a ideia de uma coleção de roupas delicadas em tons lavados apresentada pela grife italiana abriu caminhos para uma estação que vibra entre o o transcendental, o positivismo, a psicodelia e até certo bucolismo.

“Queríamos uma mudança de tom”, afirmou Miuccia Prada. “O oposto da agressão, do poder e da maldade que governam o mundo hoje.” Desfilada ao som de pássaros, num cenário aberto e claro, com tapetes de grandes flores sobre o chão, a coleção tomou como ponto de partida a conhecida série de fotografias de adolescentes feitas pela holandesa Rineke Dijkstra, nos anos 1990, na praia de Odessa, na Ucrânia —as cores rebaixadas e os trajes de banho deixam uma vulnerabilidade no ar. Em outros desfiles também.

Ainda sobre a Prada —que tem na direção junto com a mulher que leva o nome da grife um dos melhores estilistas do masculino do mercado, o belga Raf Simons—, o domínio estilístico é completo. Resulta em combinações descomplicadas, essencialistas, uma simplicidade cuja maestria se dá pelas proporções, pelo jogo das cores e materiais, e na edição das peças entre si. Simons diz que a coleção é a contribuição da marca para algo “bom, genuíno, calmo e equilibrado”.

Solar é mais um bom adjetivo. Tanto que mesmo quem gosta de um “boatismo” procura a luz. Anthony Vaccarello, na Saint Laurent, acionou uma linha imaginária entre a Paris dos anos 1970 e a Fire Island da década de 1980, “point” da comunidade gay de Nova York —”onde a fuga se torna elegância e o desejo, uma linguagem”, conforme ele disse, tendo como inspiração o próprio Yves Saint Laurent, em uma fotografia em que o estilista aparece com short e de tênis.

Os óculos, o cabelinho repartido para o lado, a delicadeza e a fragilidade do estilista rondam a instalação lúdica da artista Céleste Boursier-Mougenot —uma piscina azul, junto à rotunda do prédio da Bourse de Commerce, onde fica a coleção do maganata do luxo François Pinault.

Ao deixar de lado seu lado “dark”, Vaccarello deu um show como colorista, trazendo esse aspecto que fez de Saint Laurent um dos grandes mestres. A silhueta de ombros marcados vem do feminino e se fez presente na coleção.

Foi um raciocínio semelhante ao de Jonathan Anderson, em sua estreia na Dior, o mais comentado da temporada, com o desfile mais importante da estação. Ao rever tanto os códigos da maison quanto os do vestuário masculino, ele dá início a uma nova era.

Anderson se apropriou da forma do “new look”, clássico de 1947 —com a jaqueta Bar e a saia Corolla—, com elementos como as camadas do vestido Delft, de 1948, desdobradas em bermudões cargo, juntos a uma despretensão grunge, um esportivo “preppy” e uma pegada histórica, entre homenagens a suas raízes da Irlanda do Norte.

O estilista se põe na dianteira das expectativas para os desfiles femininos adiante. Sobre as cores —só Rick Owens se manteve sombrio, com uma performance só com roupas pretas e para lá de apocalíptica no Palais de Tokyo, abrindo sua exposição retrospectiva em frente no Palais Galliera, museu dedicado à moda da cidade de Paris.

A estreia de Julian Klausner para o masculino da Dries Van Noten também foi bem recebida. Ele já havia assinado o feminino em março, com a missão de substituir o estilista com quem trabalhava havia seis anos, agora aposentado.

Com apenas 33 anos, a tarefa está longe de ser fácil. Van Noten é considerado um dos grandes poetas da moda contemporânea, mas aqui ele encontra chão mais firme. Tomou como inspiração o guarda-roupa formal de uma festa chique, só que descontraído por gravatas afrouxadas, lindos pareôs sobrepostos para ir à praia ver o nascer do Sol. Tudo sob a música de Lou Reed sob o diapasão de Van Noten —muita cor, estampas, bordados, texturas.

Quem decidiu ser formal, sem tanto sucesso, foi a alfaiataria dominante na Louis Vuitton de Pharrell Williams, que perde em força criativa e imagem.

Mais acertado, na mesma tendência, veio Willy Chavarria, estreando em Paris com toda a sua latinidade. A italiana Dolce & Gabbana celebrou o conforto e o descompromisso dos pijamas, em muitas versões e opções, sem maiores brilhantismos.

No lado japonista, tanto Junya Watanabe quanto a Comme des Garçons chegaram com força. Nesta temporada, cujos principais agentes da moda debatem esteticamente a masculinidade arquetípica e binária, a marca de Rei Kawakubo questionou o vocabulário da alfaiataria com xamãs urbanos sofisticados. “Precisamos de alguém poderoso para nos conduzir à paz, ao amor e à fraternidade”, diz a estilista.

Craig Green encerra sua apresentação num viés lisérgico, na coleção que toma inspiração na fase Sgt. Pepper dos Beatles, enquanto a Jacquemus aciona seu lado de camponês em uma apresentação na Orangerie do Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris.

Acessando ancestralidades, Paula Kim, Pedro Andrade e o artista multimídia Samuel de Sabóia apresentam pela primeira vez no prêt-à-porter a marca brasileira P.Andrade, marcada pelo experimentalismo conceitual e têxtil.

Esta temporada tem como mote a atenção em torno de partidas e chegadas —Demna Gvasalia se despede na alta-costura da Balenciaga, assumindo a Gucci; em seu lugar entra Pier Paolo Piccioli. Tem Glenn Martin estreando na Artisanal da Margiela; Matthieu Blazy na Chanel; Louise Trotter trocando a Carven pela Bottega Veneta. Michael Rider agora fica na Celine, e os estilistas da Proenza Schouler no antigo posto de Jonathan Anderson na Loewe.

A dança das cadeiras atende aos interesses da indústria, mas é curioso destacar o êxito e a estabilidade de Véronique Nichanian, uma mulher, há 37 anos à frente do masculino da Hermès. Mais “quiet luxury”, impossível.



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