Na casa dos 20 anos, Sebastião Salgado foi trabalhar como economista na África, após ter saído do Brasil durante a ditadura militar —ele pertencia a um grupo revolucionário de esquerda e a perseguição política o forçou a tomar essa decisão. No continente africano, viu a face mais cruel do capitalismo, a exploração do homem pelo homem, a fome, a intolerância, a cegueira do mundo diante de tanto horror e iniquidade.
O exercício da economia apenas ajudava a sedimentar ainda mais a desigualdade. Não bastava lidar com números, cálculos e relatórios. Era preciso criar um manifesto, mostrar para as pessoas aquilo que elas não queriam ver. Quiçá, criar consciências, mudar realidades. E então, ele fotografou.
Em poucos anos, a surpreendente desenvoltura de seu olhar transformou a sua ética em uma estética. A fotografia em preto e branco passou a ser seu território de luta. Ao contrário da película colorida, que tenta mimetizar ao máximo a aparência do real, o preto e branco, que é em boa medida uma abstração da visão, lhe possibilitava levar aos limites o chiaroscuro, acrescentar atmosferas, encontrar entre as tramas de grãos de prata cinzas, pretos e brancos a mais legítima e dramática forma de expressar a vida daqueles que vivem à margem do perverso projeto capitalista.
Tamanha determinação conceitual e formal o levou a tornar-se, em 1979, um dos membros da Agência Magnum —o panteão dos fotodocumentaristas, criada por Henri Cartier-Bresson e Robert Capa entre outros. Numa reportagem encomendada para a Magnum, em 1981, ele teve a missão de fotografar por alguns dias a agenda do então presidente norte-americano Ronald Reagan que completava 100 dias de governo.
Num deslocamento em Washington, um rapaz de 25 anos atirou tentando acertar Reagan e matou um dos seguranças. Salgado, que acompanhava de perto o presidente, conseguiu se jogar no chão sem ser atingido e disparou sua câmera fazendo 76 fotografias em um minuto. No dia seguinte as imagens estavam em todas as capas de jornais do mundo e Salgado ficou globalmente conhecido. Com o dinheiro conseguido com a venda dessas imagens, partiu para a África. Povos isolados e a natureza selvagem eram o seu foco.
A partir desse momento, Salgado começou a dar feições aos seus projetos pessoais. E iria fazê-lo planejando em minúcias cada passo, cada uma das viagens para os cerca de 130 países que ele foi incontáveis vezes. Esse certamente é um dos seus maiores legados para a geração de fotodocumentaristas que nele se inspiram, a percepção de que, para ter direito a representar pessoas, comunidades e países é preciso ganhar legitimidade, ter intimidade, convívio e compaixão. E isso tudo antes de sacar a câmera para fazer fotografias. Logo, tratava-se de projetos de longo termo, que podiam levar de sete a 10 anos para serem realizados.
Para tanto, Salgado mostrou-se muito hábil politicamente para conseguir envolver instituições, fontes de financiamento, ONGs e estar do lado de quem realmente queria contribuir para uma mudança do estado das coisas. E nesses aspectos, o mineiro de Conceição do Capim trilhou um caminho único que culminou com seu trabalho sendo exposto em larga escala nos cinco continentes, em museus e espaços culturais da maior relevância, mas também em praças, trens, estações de metrô, outdoors e onde fosse possível levar seu manifesto e sua rebeldia com os caminhos tortuosos da humanidade.
Em 1986 ele lançou seus dois primeiros livros, “Outras Américas”, com os povos indígenas da América Latina e “Sahel: O Homem em Pânico”, com imagens perturbadoras sobre a seca no norte da África, em sua primeira parceria com a ONG Médicos Sem Fronteiras.
Esses livros lhe deram definitivamente a percepção do caminho a seguir. Salgado passou a planejar seus próximos projetos de longo prazo, que o fizeram percorrer o mundo algumas vezes e deram o contorno definitivo de uma das carreiras mais sólidas, inventivas e politicamente engajadas já vistas até hoje. Entre 1986 e 1992, ele realizou o projeto “Trabalhadores”, voltado ao fim do trabalho manual, à crescente robotização das linhas de produção e à precarização do emprego. A visão do economista sempre guiando as composições do fotógrafo.
Mais um ciclo de sete anos e surgiu o megaprojeto “Êxodos”, com o fenômeno global de desalojamento de pessoas em massa. Pungente como sempre, o longo tempo vivido com as pessoas nos campos de refugiados rendeu ainda um trabalho dos mais tocantes, “Retrato de Crianças do Êxodo”. Aqui, Salgado se voltou para a fotografia direta, o retrato frontal, olho no olho com as crianças. Folhear esse livro e se deixar ser atravessado pelos olhares delas vale por mil tratados de paz. Em 2000, 90 desses retratos ocuparam a ONU em Nova York, representando 30 milhões de pessoas sem residência fixa no mundo. Em 2024, esse número havia saltado para mais de 122 milhões de pessoas refugiadas.
Mais oito anos de trabalho de campo e então surgiu o terceiro megaprojeto, “Gênesis”. Tirando de foco as agruras do capital, como forma de pensar na cura de si próprio e do mundo, o fotógrafo voltou-se para redescobrir, entre montanhas, desertos, oceanos, animais e povos que resistem nas suas culturas ancestrais, a terra e a vida de um planeta ainda intocado. “Cerca de 46% do planeta ainda é como era no tempo do Gênesis”, disse Salgado na época do lançamento. Em mais de 30 viagens —a pé, em aeronaves leves, embarcações marítimas, canoas e até balões, em meio a calor e frio extremos e em condições às vezes perigosas—, Salgado criou uma coleção de imagens que nos mostram a natureza, os animais e os povos indígenas em sua beleza indômita.
No ano passado, prestes a completar 80 anos, o fotógrafo comentou a conjuntura distópica que estamos vivendo. “Minha visão é pessimista em relação à minha espécie, o ser humano, que não evoluiu nada. Nossa espécie se isolou”, disse, em entrevista ao The Guardian, lamentando a cegueira daqueles que têm o poder de tomar decisões globais, que “além de não conseguirem lidar com as emissões, também ignoram dois outros problemas estruturais cruciais: a crescente escassez de água e a perda catastrófica da biodiversidade”. E completou: “Sou pessimista em relação à humanidade, mas otimista em relação ao planeta. O planeta vai se recuperar. Está cada vez mais fácil para o planeta nos eliminar.”

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/ccisp-ipca2-scaled.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)











/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/ccisp-ipca2-scaled.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)



