Opinião – Djamila Ribeiro: Um cinema que rompe silêncios

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Opinião – Djamila Ribeiro: Um cinema que rompe silêncios


O que acontece quando histórias marginalizadas rompem o silêncio e ocupam o centro da narrativa? O filme “Manas”, de Marianna Brennand, faz o convite à expansão dos horizontes e nos leva de barco para uma travessia de rio junto a Marcielle —personagem vivida por Jamilli Correa— pelo preocupante, múltiplo e complexo cenário do abuso infantil no Brasil, especialmente na ilha de Marajó, no Pará, onde se passa o longa.

Nos últimos anos, muito tem sido dito na imprensa e na política sobre os abusos cometidos naquela ilha. “Manas” devolve à região suas cores roxo do açaí, verde das águas e grafite das lamas —e, sobretudo, suas vozes, para propor o bom debate de que a violência sexual não é exceção, mas tautologia: repete-se na rede na casa, nos caminhões sobre a balsa, no banheiro de uma festa. Uma rotina de crimes mascarada por tabus, até que o cinema a desvela com a precisão de quem conhece o peso do silêncio —e a potência da cumplicidade entre mulheres.

Se já é motivo de celebração vermos uma mulher levar às telas um filme com tamanha qualidade técnica e potência estética, “Manas” vai além: sua espinha dorsal é sustentada por mulheres em diversas frentes —na direção, na produção, no elenco. Isso nos convida a refletir sobre os efeitos transformadores que surgem quando são visíveis narrativas construídas por pessoas de grupos historicamente discriminados, como somos nós, mulheres, sob a estrutura do patriarcado.

O que Brennand e sua equipe constroem com maestria é um mosaico de silêncios eloquentes. A câmera não precisa mostrar o ato violento —ela nos ensina a ler seus rastros nos olhares desviados das mulheres, nos gestos interrompidos, nas pausas mais barulhentas que gritos. A violência está presente, mas não ocupa a cena com brutalidade. Ela se insinua —como costuma se insinuar na realidade— entre silêncios, crueza e ausências.

Já quando a violência se escancara (e ela o faz, em cenas necessárias), vem carregada de um peso que escapa ao sensacionalismo, justamente porque o filme prepara o público para compreendê-la como parte de um sistema, não como “caso isolado”.

Observei durante o filme Cinthia (vivida por Samira Eloá), uma menina negra, personagem coadjuvante, amiga de Marcielle. É notável que em pesquisa na internet para este texto tive dificuldades para conhecer seu nome, bem como não encontrei foto sua. Não há referências ou entrevistas acerca de seu papel —e isso também nos diz sobre lugar de fala.

Mas preciso dizer que sua personagem me marcou por identificar nela o peso do patriarcado racista. Pode nos levar a refletir sobre a interseccionalidade que mulheres negras como Zélia Amador de Deus (educadora, lenda viva brasileira e orgulho do Pará) há décadas denunciam: ela é sexualizada antes mesmo da puberdade, é acolhedora por natureza e forte por obrigação.

Como afirma a professora Zélia Amador em uma de suas obras: “Quem vem de Marajó não escapa. Se for negro, saberá desde cedo. Os espaços são separados. A casa-grande é a casa dos brancos. O rancho, a casa dos negros. Não há margem para dúvidas”.

Um olhar atento às personagens e podemos refletir o quanto uma denúncia pode custar; o quanto a exploração da desigualdade econômica vivida por mulheres sustenta a lógica do abuso infantil, da gravidez indesejada e do aborto inseguro; mas também o quanto a perseverança solidária de muitas de nós pode abrir caminho para outras.

A essas personagens se somam outras inúmeras mulheres (e alguns homens) que estão aqui, na “vida real”, fazendo o que podem e muito além dos recursos que têm à disposição.

Na estreia em São Paulo, conheci algumas das pessoas reais defensoras de direitos humanos na região que inspiraram o longa —como a irmã Maria Henriqueta, transformada na personagem Aretha (Dira Paes, magnética), e o delegado Rodrigo Amorim.

O elenco, portanto, é um outro acerto do filme, que marca a estreia no cinema de Jamilli Correa, uma jovem paraense.

Escalar uma menina tão nova (com 13 anos à época das filmagens) para um papel tão denso é uma decisão ousada —e que se mostrou certeira. Jamilli entrega uma atuação comovente, feita de fúria contida e amor pelas mulheres da família. Agora sejamos sinceras: se esse fosse um filme dirigido por homens, a escolha seria alardeada como ousadia genial. Quando a direção é feminina, naturaliza-se o brilhantismo. Concordam?

Pois é o caso de parabenizar Marianna Brennand e toda a equipe do “Manas”, que chega às salas de cinema nesta semana e nos apresenta o cinema como instrumento de reparação, reflexão e transformação social.


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