Opinião – Djamila Ribeiro: Santa Sara Kali, personagem de diferentes religiões

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Opinião – Djamila Ribeiro: Santa Sara Kali, personagem de diferentes religiões


No dia 24 de maio, estive na festa de Santa Sara Kali, realizada no Morro da Nova Cintra, em Santos, minha cidade natal. Fui acompanhada por Nina Barbosa, secretária da Mulher, Cidadania, Diversidade e Direitos Humanos da cidade, e pude vibrar com o povo romani, mergulhar nas danças e relembrar eventos do passado que seguem vivos em mim.

Santa Sara é uma santa muito festejada por devotos de diferentes religiões, porém seu culto e celebrações foram preservados ao longo dos séculos pela fé e resistência do povo cigano. Há muitas histórias sobre sua origem, e uma das lendas mais difundidas conta que Sara Kali era serva de Maria Madalena e que, lançadas juntas à travessia do Mediterrâneo, enfrentaram perigos que tornavam a morte certa.

Uma promessa feita por Sara teria garantido a salvação daquelas mulheres, e a chegada ao sul da França, em Saintes-Maries-de-la-Mer, tornou-se um dos seus mais conhecidos milagres. Até hoje, todo 24 de maio é dia de peregrinação à cidade francesa.

Nascida no Egito, a santa percorreu o mundo —como seu povo devoto. Kali, em sânscrito, significaria negra, e há quem associe seu nome à deusa hindu de mesmo nome, de profunda influência nos grupos romani. Mesmo sem canonização formal, santa Sara é padroeira dos ciganos e venerada por mulheres que pedem fertilidade. Uma santa mulher, negra, rejeitada e adorada, andarilha e sobrevivente.

A quadra da Unidos dos Morros, escola de samba que descansa seus agogôs naquela época do ano, se transforma para acolher a festa. O barracão se abre aos vestidos esvoaçantes e às danças de tempos imemoriais. Na entrada, barracas exibiam roupas coloridas, incensos fortes e tarôs de todos os tipos. Jesus Cristo, Oxóssi, Kali, Lorde Ganesha e todo o panteão de divindades compartilhavam o espaço no pequeno mercado da festa.

Fomos nos misturando à multidão que acompanhava as celebrações e assistimos às danças, intercaladas com discursos de resistência liderados por mulheres ciganas. Estavam presentes membros do Conselho da Comunidade Negra de Santos —no qual o povo cigano possui uma cadeira— além de outras autoridades da cidade.

Ao fundo, um altar com frutas, flores e pães foi montado para santa Sara. Ela nos olhava dali, imponente, envolta por colares e luz de velas. Aquela imagem, diante de uma população diversa, de múltiplas crenças e origens, me tocou profundamente.

Fazia 20 anos desde a última vez que estive ali. Naquela ocasião, ainda jovem e sem saber que estava grávida, fui atendida por uma cigana. Ela segurou minha mão, olhou nos meus olhos e disse com firmeza: “Você está grávida de uma menina e ela será sua grande amiga”. Thulane, minha filha, que eu ainda nem sabia que existia, tornou-se exatamente isto: minha companheira de vida. A memória daquele encontro me acompanhou por duas décadas.

No andar de cima, onde é o camarote da escola, as cartomantes ocupavam suas mesas. Mulheres de olhos intensos e lenços vibrantes atendiam longas filas de pessoas que buscavam orientação. Fiquei com a imagem de uma cigana embaralhando suas cartas, diante de uma mulher concentrada na oração. Uma pergunta havia sido feita ali e o mistério, a presença e a paz de espírito que surgem do aconselhamento se manifestaram na força da tradição cigana.

Ao final da noite, caminhei até a gruta de Santa Sara. Mais frutas, sementes e flores. Lembrou-me o ritual de Pachamama, do qual participei no interior da Argentina há alguns anos. O povo fazia fila e deixava oferendas com fé. Acendi a minha vela, pedi proteção e agradeci. A imagem da santa da pele preta estava coberta por colares, e o perfume das velas pairava no ar. Havia ali uma paz profunda, difícil de descrever.

O povo cigano lutou por anos para construir esse espaço de reza. Hoje, com a gruta, sonham com uma capela na praça de Santa Sara Kali. Não é assim que as capelas surgem? Ter uma festa anual no calendário oficial da cidade, com um local sagrado para oferendas e celebrações, oferece a Santos uma oportunidade singular no país de se tornar um território de respeito à espiritualidade cigana e a todo povo que a admira.

Em tempos de crescente intolerância religiosa, lembrar santa Sara é também um gesto político. Ela representa todas aquelas que foram silenciadas, mas que seguem falando por sonhos, visões e danças. Ao descer o morro naquela noite, compreendi que há memórias que não se apagam. Elas apenas esperam o momento certo de voltar.

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