Opinião – Djamila Ribeiro: Oxumarê e a dualidade complementar do feminino com o masculino

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Opinião – Djamila Ribeiro: Oxumarê e a dualidade complementar do feminino com o masculino


Vamos continuar a reflexão iniciada na coluna da última semana, quando abordamos Ewá e sua conexão com a névoa e a cobra. Observamos naquele texto como a figura da cobra é divinizada em diversas culturas, inclusive no candomblé, onde as serpentes estão associadas a dois orixás irmãos: Ewá, protagonista da nossa reflexão passada, e Oxumarê, senhor da nossa reflexão de hoje.

Estamos nos aproximando do final desta série especial sobre o pensamento a partir dos Orixás, que venho publicando nesta Folha.

O final desta série representará, por si só, um novo começo, que nos conduzirá a outro ciclo —um conceito que ressoa fortemente no simbolismo das serpentes. Uma representação recorrente, também presente no candomblé em associação a Oxumarê, é a da serpente que forma um círculo ao engolir a própria cauda. Esse símbolo encontra correspondência no conceito do Ouroboros, presente em mensagens desde o Egito Antigo, assim como em mitologias hindus, nórdicas, gregas, entre outras.

Por vezes um dragão, por vezes uma serpente em círculo, em constante movimento. Pensando nos fenômenos da natureza, a que isso nos remete? Sim, acertou quem pensou na associação da cobra com os movimentos de rotação da Terra, em torno de seu próprio eixo e de translação em torno do Sol —esse movimento elíptico lembra a serpente que se enrola constantemente.

No candomblé, quem faz esse movimento é Oxumarê, sobre o qual muitos itãs se formaram ao longo dos séculos. Um desses itãs conta que ele, manifestando-se como uma imensa cobra, deu a volta ao mundo; e continua fazendo isso para manter a Terra girando, garantindo dia e noite para diferentes cantos do planeta.

Na sabedoria dos povos de terreiro, o movimento de Oxumarê representa a continuidade, o dinamismo e a força que mantém o mundo. Ele se associa aos ciclos, à morte e à vida. Pensar na “força física” necessária para manter esse círculo em movimento constante e em perfeita sintonia traz à tona a ideia de um poder sustentador, que não é apenas físico, mas também espiritual e energético.

Em sua dança rotativa e hipnótica, Oxumarê pode ser visto a partir da busca de nova forma de compreensão da realidade social, que não seja tão dura ou incisiva. E mostra o quanto isso pode nos ajudar a pensar o mundo a partir de um olhar mais harmonioso. Em um mundo no momento pautado por dicotomias e visões irreconciliáveis, Oxumarê nos ensina a riqueza da dialética, a dança entre o começo e o fim, a dualidade complementar, e não hierárquica, entre o feminino e o masculino.

A capacidade de Oxumarê de transitar entre diferentes espaços e unir o que parece estar separado o torna uma metáfora poderosa para o papel diplomático: o de conectar nações, povos e culturas, trazendo equilíbrio e renovação.

Certa vez, conta um itã, Oxumarê escapou de uma prisão, transformando-se em uma pequena cobra que escapou pelo vão da porta. Se estamos falando de um orixá que pode ser grande o bastante para dar a volta ao mundo e pequeno o bastante para sair por uma fresta, também podemos aprender com ele sobre formas de resolução de conflitos.

A partir dessa reflexão, podemos entender também de que forma Oxumarê está ligado à representação do arco-íris, simbolizando a conexão entre o céu e a Terra, entre os reinos visíveis e invisíveis. O arco-íris aparece, portanto, como um traço de união, um símbolo de beleza e força, que enlaça o que parece ser inconciliável e traz a harmonia das diferenças. Tal como a diplomacia busca conectar lados em desacordo, Oxumarê conecta dimensões aparentemente opostas e as faz coabitar em harmonia.

Trazendo para a reflexão do país, penso que internamente falta às instituições brasileiras e suas pessoas representantes aprenderem com esse antigo orixá. Contudo, no campo externo, o país faz o possível, dentro de suas capacidades, para manter o fogo longe do barril de pólvora. Trata-se de uma atuação pacificadora digna de aplausos, que se pôde ver revigorada na última semana, com o Prêmio Nobel da Paz concedido à instituição japonesa contrária à guerra nuclear.

Estamos nos aproximando do fim da série, e Oxumarê nos prepara para a transformação final. Faltam algumas divindades do panteão dos orixás no candomblé ketu brasileiro, quando então finalizaremos com um texto sobre Exu, o grande mensageiro e orixá das encruzilhadas, aquele que nos guia no começo e no fim de cada jornada.

Que possamos, ao encerrar este ciclo de reflexões, iniciar outro com o mesmo vigor, renovando nossas visões e perspectivas, assim como Oxumarê renova a Terra e os céus a cada ciclo.

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