Há pelo menos 20 anos os políticos do governo federal fazem uma escolha.
Desde a Lei de Drogas, aprovada em 2006, o resultado foi a hiperlotação dos presídios, por décadas de encarceramento de usuários e traficantes do varejo. Nesse período, sucessivos estudos teóricos e de campo e pesquisas nacionais e internacionais apontaram os drásticos prejuízos causados pela criminalização à saúde pública, à segurança da população e de suas forças policiais e ao orçamento dos governos municipais, estaduais e federal.
Ainda assim, a opção pela criminalização das drogas segue vigente, como se não houvesse alternativa possível.
Entre tantos fatores levantados, há um acréscimo digno de nota: o crescimento das facções, que encontraram no vazio da informalidade um terreno fértil. O desamparo crônico das periferias, herdado desde a Abolição da Escravatura, foi ampliado por projetos de urbanização orientados pela discriminação racial, social e de gênero, produzindo territórios de absoluta exclusão.
Nesse cenário, multiplicaram-se disputas por esses territórios entre milícias paraestatais. Formadas tanto por traficantes como por policiais —aposentados ou ainda na ativa—, essas milícias hoje têm representantes eleitos, missionários em igrejas e famílias inteiras, ocupando espaços de poder e influenciando políticas.
Foi nesse contexto que, no início da semana, o Rio de Janeiro assistiu a mais uma operação policial de dimensões históricas contra o tráfico de drogas. Quem é mais novo talvez não se lembre da bandeira do Brasil hasteada no alto do Morro do Alemão há 15 anos, mas é importante dizer: o que se apresenta como inédito não passa de um filme requentado. Tropa de elite, helicópteros, blindados, milhares de agentes mobilizados.
O saldo, mais uma vez, será algum filme de sucesso de bilheteria sobre esse dia, mas, muito além disso, o saldo são corpos caídos, rotinas interrompidas, famílias acuadas em casa sem poder trabalhar ou estudar. A população civil, invisível nas estatísticas oficiais, pagou o preço mais alto.
No campo internacional, o Brasil, por meio de seus políticos e elites locais, persiste em sustentar o papel de colônia no tabuleiro global. Exporta minério, madeira, petróleo; entrega mulheres ao tráfico sexual que atravessa fronteiras; fornece drogas que abastecem mercados consumidores. Importa armas e caveirões, alimenta a indústria da guerra e aniquila parte considerável de sua juventude. Privatiza o que resta e remete os lucros para a Bolsa de Nova York. Alguns barões tropicais recebem seus dividendos e a vida segue —do jeito que segue.
Somos, ao mesmo tempo, armazém de recursos e laboratório de violência. O que não se diz é que essa engrenagem é movida pelo sofrimento cotidiano de milhões de brasileiros. Ao contrário: propõem-se mais mortes, mais tiros, mais entrevistas, mais discursos de ordem.
E não se trata apenas de incompetência ou falta de coordenação. Há um cálculo em curso. A manutenção dessa guerra, com operações espetaculares e seus saldos humanos, serve para justificar orçamentos, fortalecer carreiras políticas e movimentar engrenagens econômicas que vão do comércio de armas à expansão da segurança privada. Parte interessada de sua elite política chega, até mesmo, a clamar pela intervenção de potências estrangeiras, como os Estados Unidos, em águas brasileiras.
Enquanto isso, a juventude negra e periférica é empurrada para o front de batalha: como alvo da bala ou como recruta do tráfico. Uma juventude que deveria ser tratada como futuro do país é descartada sem hesitação.
Num momento em que a tragédia se repete, é urgente reafirmar solidariedade às comunidades que vivem no epicentro dessa guerra declarada. Solidariedade significa recusar a naturalização das mortes, denunciar a indiferença de quem se beneficia desse estado de coisas e insistir em alternativas que coloquem a vida no centro.
É preciso, portanto, nomear a verdade incômoda: não há enfrentamento real ao narcotráfico pelo Estado brasileiro —seja federal ou estadual, seja por Executivo, Legislativo ou Judiciário. O que há é a perpetuação de um sistema que lucra com a guerra e com a morte.
E é justamente por isso que, diante da repetição das tragédias, só resta afirmar com todas as letras: não haverá futuro digno se o pacto que sustenta essa engrenagem for mantido. Basta de hipocrisia.
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