Opinião – Djamila Ribeiro: O entreguismo ainda não chegou ao seu limite

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Opinião – Djamila Ribeiro: O entreguismo ainda não chegou ao seu limite


“Quando a gente fala de Brasil, qual é a primeira coisa em que vocês pensam?”

Em 2011, o astrônomo norte-americano Neil de Grasse Tyson fez essa pergunta a um auditório em Seattle. “Biquínis”, alguém respondeu, arrancando risos da plateia. Tyson, então, rebateu: “Biquínis? Isso os cega para o fato de que o Brasil tem uma indústria aeroespacial que está prosperando. A maioria dos aviões em que vocês voam em voos regionais é feita lá”.

O cientista jogou a isca e a audiência caiu no estereótipo misógino que associa o Brasil à sexualização das mulheres. Essa visão distorcida não surge do nada: foi incentivada por décadas pela própria Embratur, o que contribui para a exploração sexual infantil, o tráfico sexual e diversas formas de violência a meninas e mulheres.

Soma-se a isso a arrogância da audiência em desprezar de antemão tudo o que não é “american”, principalmente se vem da América Latina. Naquele momento, fosse México, Colômbia ou qualquer outro exemplo discutido em aula, seriam previsíveis comentários similares de reprodução de estereótipos, pois a arrogância é fundada no imperialismo norte-americano.

Seguindo o exemplo do professor, vamos nos estender no debate sobre a indústria da aviação brasileira. Santos Dumont não apenas criou uma máquina que decola com propulsão própria e pousa mas revolucionou a forma como nos conectamos e vivemos. Ainda assim, não é reverenciado como deveria e nem ele nem o Brasil receberam compensações de outros países pela genialidade.

Entretanto, o fato de Dumont ser brasileiro fez toda a diferença na aviação do país. É importante lembrarmos das décadas seguintes à invenção, quando o governo federal criou, em 1950, um dos melhores e mais concorridos centros de pesquisa em aviação do mundo, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), sediado em São José dos Campos, onde Dumont previu em seus escritos.

Sem o ITA e sem os aportes públicos do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial, a Embraer —empresa pública de aviação criada no governo militar— não teria condições de se desenvolver e a pesquisa de ponta na aviação sequer seria objeto de aula em Seattle.

Em 1994, porém, a empresa foi vendida em menos de uma hora na Bolsa de Valores de São Paulo por R$ 154,1 milhões. Terreno, aviões e a tecnologia foram entregues pelo governo, que se tornou o principal cliente da empresa, gastando vezes mais que recebeu por aviões que seriam seus se não tivesse privatizado. Não à toa, a empresa prosperou…

Como percebeu Tyson, em 2012 a Embraer foi a empresa brasileira que mais cresceu em exportações e em setembro daquele ano foram inauguradas duas fábricas em Évora, Portugal.

Entretanto, em 2018, a Boeing “anunciou” a compra de 80% da Embraer, incluindo a retirada de qualquer veto do governo brasileiro, único direito preservado na privatização, sobre decisões estratégicas da empresa. A compra só não foi efetivada porque, anos depois, a própria Boeing não quis e porque, claro, o estrago da especulação já estava feito.

Desde que foi privatizada, os interesses de parte fundamental do setor que movimenta bilhões todos os anos se fundem com os interesses de acionistas da Bolsa de Nova York, apesar de a empresa desenvolver atividades de impacto para o país.

Uma oportuna pergunta retórica: qual o grupo racial que fez e faz lucro dessa operação? E as mulheres negras, ficaram onde nessa história? Segundo eles, nos biquínis. Já segundo o suposto método sofisticado de gestão empresarial, na limpeza. Por falar nisso, o que dizer das greves dos trabalhadores em 2023 por não receberem aumento acima da inflação?

Foi com esse ceticismo que recebi a notícia de que a Embraer “pretende investir” (entre pretender e investir tem um passo) R$ 20 bilhões no Brasil até 2030. Sem que as reflexões sobre o passado sejam feitas, pergunto-me quanto desse investimento é, de fato, no desenvolvimento do Brasil.

Temo que a radicalização do novo governo Trump/Musk encontre uma camaradagem “vira-latista” no Congresso brasileiro, uma recepção acrítica de suas teses pelo Poder Judiciário e uma docilidade amedrontada do Poder Executivo pela evidente discrepância de forças com o sistema político e econômico norte-americano. Se alguém acha que o entreguismo chegou ao limite, os “patriotas” discordam.

Quando escrevi nesta Folha sobre redes sociais próprias do país, algumas pessoas escreveram debochando da capacidade científica do Brasil. A aviação brasileira mostra o contrário.

O que nos falta é investimento sério em pesquisa e desejo de soberania. Infelizmente, a classe política dominante deste país só quer que sejamos lembrados pelos nossos biquínis.


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