Estou em São Luís, capital do Maranhão, hospedada em um hotel à beira-mar, de onde escrevo este texto de frente à imensidão que atrai os meus pensamentos. Tudo parece tão pequeno perto da maré.
Encontro uma forma para tratar o mar no feminino, como a língua francesa faz. A mar. La mer. Parto do candomblé brasileiro que cultua Iemanjá, a mãe dos peixes e de todas as cabeças, que representa a matriz do ecossistema das águas salgadas, casa de muitas formas de vida. Iemanjá é conselheira das respostas que buscamos, fala conosco pelo som das ondas e da cor azul infinito.
Prefiro a versão francesa do mar e me pego a pensar sobre as palavras e suas designações, que ora confirmam, ora invertem lógicas. Nesse sentido, uma palavra que não me desce ser no feminino é a inveja.
Não que mulheres sejam imunes, muito pelo contrário. Na verdade, colocar as mulheres como invejosas é o lugar-comum de muitas análises. Porém, entendo que situadas em uma posição de desvantagem social que reduz oportunidades de alcançarem espaço de poder, mulheres precisam disputar pela única vaga e, quando uma consegue, outras a invejam, pois tanto gostariam de ser essa pessoa quanto sabem que não há muitas vagas à disposição.
Freud dizia que as mulheres sentiam inveja do pênis, ao que Beauvoir respondeu décadas depois que não seria inveja do pênis em si, mas dos privilégios que acompanham o pênis.
A verdade é que nós feministas sabemos muito bem até onde um homem é capaz de ir quando não tem algo que quer, quando se ressentem em ver aquela mulher que queriam chorando, feliz. Sendo a mulher o alvo de seu desejo de posse, como acontece todos os dias no país todo, monta-se o palco para todo tipo de tragédia. Historicamente, homens mataram, estupraram, sabotaram por inveja. E ainda o fazem.
De outro lado, uma outra palavra que me parece bem aplicada no masculino na língua portuguesa é o rancor, esse um grande motor de uma frustração que se torna ódio. Iemanjá visita meus pensamentos e me lembra dos apuros pelos quais as mulheres passam no ambiente de trabalho quando o chefe as deseja sexualmente e recebe um não às suas investidas. Caso ela esteja em um relacionamento, ou então se interesse por outro homem no grupo que não ele, múltiplos sentimentos emergem: inveja em relação ao homem “sorteado”, o rancor em relação à mulher por não o querer.
“Ou você é minha ou não é de ninguém”, como muitos dizem todos os dias. No contexto profissional de uma empresa, uma instituição pública, um partido político, ainda que sejam boas ou até mesmo excelentes no que fazem, mulheres enfrentam verdadeiros calvários contra a inveja masculina, não tendo condições de reagir à altura por lhes faltar poder hierárquico, como poder em uma estrutura patriarcal, que privilegia os homens de largada.
Além disso, muitas mulheres têm dificuldade estratégica em reagir, pois o processo de fritura pode vir como algo incolor, insípido, mas insidioso e profundamente doloroso. Difícil de provar, muito fácil de sentir. A propósito, assédio é uma outra boa palavra aplicada no masculino.
Mulheres em posição de chefia veem-se em outra situação, sobre a qual podemos refletir em outro texto. Vale dizer que a análise a partir da lógica do poder considera que não existem santos ou santas na humanidade. Ou seja, nem todos os homens nem todas as mulheres são algozes e vítimas. Mas considera-se que, por estarem em uma posição que os privilegia em um sistema patriarcal (e racista), homens possuem à sua disposição inúmeras ferramentas para reificarem esse sistema.
A corrupção é uma delas e está descrita, pelo menos, desde Adão e Eva. Logo, homens sabem muito bem que possuem armas às mãos para punir mulheres que dizem não, quando supõem que deveriam dizer sim; ou dizem sim, quando deveriam, sob sua ótica, dizer não.
Uma das mais antigas armas do patriarcado, nesse sentido, é identificar e premiar mulheres que lhe dizem sim, em detrimento das que lhe dizem não, privilegiando-se de seu poder e das poucas vagas à disposição. Homens que, mesmo sendo péssimos, por serem poderosos, possuem amantes, mulheres belas, e as “premiam” com a vaga que desejam e que conseguem pela via do atalho. Vaga esta, evidentemente, inferior à que ele ocupa.
Precisamos estar atentas e atentos às armadilhas do patriarcado e entender por quais razões homens farão de tudo ao seu alcance para conservar um sistema que instiga as mulheres a rivalizarem entre si.
Rivalidade, no feminino, soa, portanto, como um grande cinismo, o qual, este sim, representa bem a conduta de muitos homens neste país.
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