Em um cenário polarizado, no qual discussões fundamentais são reduzidas a disputas passionais comparáveis a torcidas de futebol, a ideia de independência segue um valor ético indispensável.
Não falo apenas da independência política ou econômica —as quais, cada qual a seu modo, possuem imenso valor—, mas daquela que se desdobra no campo do pensamento: a autonomia para refletir sem subordinação a consensos fáceis, para agir sem a necessidade de aprovação alheia. A independência intelectual, essa condição tão rara quanto preciosa, me remete aos versos de Sérgio Sampaio em “Sinceramente“, quando canta:
“Não há nada mais bonito do que ser independente. E poder se conquistar, sair, chegar, assim, tão simplesmente. Não há nada mais tranquilo do que ser o que se sente. E poder amar, perder, chorar, depois ganhar, assim, tão livremente. Não há nada mais sozinho do que ser inteligente e poder cantarolar, errar, desafinar, assim, sinceramente”.
É bonito bancar o que se é, ganhar, perder, mas ser fiel a si. Em “Minhas palavras estarão lá“, a poeta feminista negra Audre Lorde também trouxe uma importante reflexão sobre independência, quando escreveu linhas memoráveis, que me fortalecem sempre que as leio:
“Meus críticos sempre quiseram me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É mais fácil lidar com um poeta, certamente com uma poeta negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela consegue preencher suas expectativas”.
E Lorde continua: “mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força. Tem sido minha fraqueza porque minha independência me custou o suporte de algumas pessoas. Mas, veja você, também tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em frente”.
“Eu não sei como eu teria sobrevivido às diferentes coisas às quais sobrevivi e continuado a produzir se eu não tivesse sentido que é tudo que eu sou que me satisfaz e satisfaz a visão que eu tenho do mundo”, finaliza a autora.
Já nas palavras de Milton Santos, o intelectual não poderia ser escravo do pensamento alheio, criticava o que chamava de pensamento mimético: a simples repetição de teorias produzidas em outros contextos, sem crítica ou adaptação. A independência seria fundamental para alguém poder ser chamado de intelectual.
A independência tem um preço alto, requer coragem para enfrentar boicotes, ataques, tentativas de deslegitimação. Em sociedades marcadas pela normalização da desigualdade de voz entre grupos sociais e pela manipulação da opinião pública, pensar de forma independente é recusar o conforto da mediocridade e a anestesia dos consensos. Por isso ela é irritante e vigiada. Ser independente é recusar a domesticação da imaginação crítica.
A independência, levada ao limite, é expressão de liberdade: não pede licença às estruturas, não reconhece como naturais as hierarquias impostas nem se curva à chantagem do poder. Ser independente é afirmar que nenhuma instituição é sagrada e que nenhuma autoridade é inquestionável. É recusar o teatro das obediências cotidianas —o voto cativo, o oba-oba, as patotas, a crítica fácil— para reivindicar a dignidade de viver sem correntes.
É recusar o mito da ordem e progresso a fim de revelar que, não raras vezes, o que se chama de ordem nada mais é do que a coreografia calculada da desigualdade. É sustentar o pensamento crítico contra sua morte anunciada, exercendo-o com maturidade e respeito, mas sem abdicar da própria convicção. Pois independência não é desvario nem molecagem: é a mais exigente forma de responsabilidade.
Para mulheres negras em uma sociedade capitalista, racista e patriarcal, ser independente é um jogo de capoeira, um encontro entre a dança e a luta. Partindo de lugares vulneráveis economicamente, é preciso ginga para seguir, saber a hora de desviar do golpe, a hora de golpear, entender que o silêncio, muitas vezes, não é consenso, mas estratégia de sobrevivência. É uma dança que exige solitude, mas que projeta solidariedade, porque ao se libertar das amarras do pensamento hegemônico abre-se também espaço para que outros respirem.
Outro dia, assistia ao filme indiano “A voz do empoderamento“. Em uma das cenas, um personagem tenta subornar o homem conhecido como o mandachuva da área. Este se ofende com a tentativa de suborno, questionando “você quer subornar um pássaro livre com uma mera gaiola?”.
Parafraseando, se pudesse sintetizar o significado da independência, diria: não se pode impressionar um pássaro livre com uma gaiola. Seu destino é o voo.
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