Opinião – Djamila Ribeiro: Com a Casa Aláfia, nasce um quilombo urbano no coração de Curitiba

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Opinião – Djamila Ribeiro: Com a Casa Aláfia, nasce um quilombo urbano no coração de Curitiba


O candomblé brasileiro nasce do culto aos orixás, nossos ancestrais divinizados cujas passagens pela vida terrena há muito, muito tempo, fundaram caminhos que seguimos trilhando e ressignificando.

É uma filosofia de vida que se ancora na ancestralidade, transmitida de geração em geração desde tempos imemoriais. Honramos os mais velhos como guardiões da memória e do saber, ao mesmo tempo em que nos colocamos como guias e protetores das mais novas gerações.

Boa parte do culto candomblecista se dedica ao estudo e aprofundamento desses caminhos, que são tecnologias mobilizadas para ensinar, a partir da observação de suas potências e desafios, a superação e transcendência espiritual e de vida, tanto do indivíduo, quanto de sua comunidade.

Esses caminhos são conhecidos como Odus e, embora haja princípios comuns, o entendimento sobre eles varia de terreiro para terreiro. Os Odus são trabalhados muitas vezes no jogo de búzios, que é a forma pela qual uma pessoa se consulta com o oráculo presente nas religiões afro-brasileiras.

Para quem se consulta, é importante destacar que mais do que adivinhação, os Odus trazem mensagens, dilemas e perguntas que, quando postas em perspectiva com a própria vida da pessoa que se consulta, podem provocar uma profunda autoavaliação.

O Odu Ossá, com nove búzios abertos, pode lhe perguntar como você vem honrando o poder feminino, por exemplo, como pode alertar para que você se reconecte com esse planeta mágico.

O Odu Ejiokô, com dois búzios abertos, pode vir relembrar onde está aquela leveza necessária para uma vida que se amargou, ou alertar sobre uma ingenuidade que vem lhe prejudicando. E por aí vai, em inúmeros significados.

O estudo mais conhecido a respeito desses caminhos —que também dialoga com o culto de Ifá, sobre o qual falaremos em outra ocasião— mapeia 256 Odus, os quais são concentrados em 16 principais.

Cada qual possui sua recomendação, cuidado e sentido que são interpretados pela mãe de santo (iyalorixá) ou pai de santo (babalorixá) segundo cada qual seu aprendizado de axé.

Tamanha é a extensão do assunto que Odus valeriam uma série por si só. Estudiosos como Mãe Stella de Oxóssi e Agenor Miranda da Rocha —entre muitas e muitos outros— passaram a vida estudando-os atentamente e deixaram imensas contribuições para as gerações seguintes que seguem observando-os.

Entre eles, há um Odu cuja manifestação é celebrada com especial alegria: Aláfia. Quando, diante de uma pergunta, os 16 búzios se apresentam abertos, quase sempre são sinais de ventos favoráveis —paz absoluta, boas notícias, prosperidade e equilíbrio. Não à toa, “aláfia” tornou-se expressão de boa sorte, um chamado para pensamentos e ações positivas.

Foi lembrando esse Odu que recebi, por meio da artista Aline Bispo —que ilustra esta coluna desde o início—, a notícia sobre a abertura da Casa Àlàáfíà em Curitiba.

Aline está muito entusiasmada com essa iniciativa que está localizada na rua Jaime Reis, 480. A Casa é idealizada pelo cantor e poeta Daniel Montelles e nasce como um quilombo urbano no coração da cidade: “Casa com cultura, estética e gastronomia afro-brasileira, um sinal de que coisas boas estão por vir. Casa Àlàáfíà resiste em diáspora, trazendo com muito afinco a voz do povo preto e sua majestade matriarcal. Estamos prontos para denegrir nossas relações, nossas trocas… Reelaborando um modelo de atendimento e cultura na cidade, com riso no rosto e resistência. Um espaço preto para a comunidade, onde a hierarquia e o zelo pela excelência ancestral são nossa principal bandeira”.

A casa parte da máxima do poeta Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nego Bispo, morto há dois anos, que, ao refletir sobre essa existência circular dos povos negros, quilombolas e indígenas, afirmava: “Nós somos o começo, o meio e o começo. Existiremos sempre, sorrindo nas tristezas para festejar a vinda das alegrias.

Nossas trajetórias nos movem, nossa ancestralidade nos guia”. O lançamento será neste domingo, dia 17 de agosto, às 12h, indo tarde e noite adentro da capital paranaense.

Terá afoxé, maracatu, samba e outras expressões culturais. Um espaço de pessoas negras a partir de saberes ancestrais, junto à presença de cada pessoa convidada a se vestir de branco para adicionar a esse expressivo axé inaugural.

Só posso desejar toda sorte à Casa e que possamos sentir o bom caminho que já começou. Aláfia!


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