Então…
Já repararam quantas e tantas pessoas começam uma frase, uma conversa ou até uma resposta com um, involuntariamente, misterioso “Então”?
Como se algo já houvesse acontecido, um começo que já tivesse começado antes, uma continuação do que ainda principiava, um assunto, uma coisa que possuía um início anterior. Só que não!
Aquele “Então” que chega de supetão, materializando-se do nada, é o próprio começo, com a primeira letra em maiúsculo e tudo.
E quando isso começou? Difícil precisar. Talvez esse uso e lugar do “Então” sempre esteve por aí, eu que demorei a encontrar. Ou, então, a coisa foi começando devagarinho, antes de virar tendência e só então se alastrar.
Não sei, mas nas primeiras vezes que me deparei com esse tipo de pontapé inicial para o colóquio interpessoal, além da estranheza, tive que conter a impaciência e a incompreensão.
Era como se eu tivesse perdido algo, ou me distraído, mas sabia que não era isso.
Meu interlocutor é que vinha de um “passado próprio”, onde a conversa ou frase que ele continuava em voz alta soltando um (para mim) inesperado “então” já havia começado. Só que muito intimamente, uma coisa entre ele e ele. Eu é que não sabia, ou não era da minha conta.
Aí, peguei antipatia, nunca manifestada. Até agora.
Mas agora já passou. Não que tenha me acostumado, mas compreendi que o tal “Então” não é nada pessoal contra a minha humilde pessoa. Ele serve como um tipo de ignição, uma virada de chave, uma fagulha para fazer pegar o motor e o interlocutor entrar na conversa. O “Então” seria uma versão linguística (e traduzida) do conhecidíssimo “loading…”, tendo o mesmo propósito: sinalizar que algo ainda vai começar.
Mesmo compreendendo melhor o mecanismo, não significa que preconizo o hábito ou, muito menos, defenda a difusão. O uso indiscriminado do “Então” como um tipo de botão de start verbal pode levar a situações perigosas, violentas ou constrangedoras, que devem ser examinadas com cuidado.
Por exemplo, um paciente nervoso é atendido pelo médico e logo pergunta: “E aí, doutor? Qual foi o resultado do exame? Eu tenho algo grave?”. Se a resposta já começa com um “Então…”, o pânico e o desespero podem surgir de imediato, o que não deve ser o objetivo de um bom profissional.
Imaginando uma situação mais doméstica: o marido chega de surpresa, antes do esperado, surpreende a sua cara-metade com metade da cara encoberta pelo volumoso rapagão que a encobre e cobra: “Jennifer Christine! Como você explica isso?”. Ao iniciar suas justificativas com um vago “Então…”, pode-se ganhar um pouco de tempo, mas não ajuda nada no arrefecimento dos ânimos. Talvez o “Então” não seja o mais adequado para iniciar uma má notícia.
Então, cheguei até aqui e só então percebi que até então não tinha ideia de nenhuma conclusão. Isso tudo, realmente, é uma questão? Os vícios de linguagem, os desgastes, corrosões e inovações não fazem parte do organismo que mantém o idioma vivo?
Então…
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