Opinião: Carlos Lemos foi um mestre dos estudos de arquitetura do Brasil

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Opinião: Carlos Lemos foi um mestre dos estudos de arquitetura do Brasil


Em junho passado, com cem anos recém-completados, o arquiteto, pintor, escritor e professor Carlos Lemos lançou seu último livro, “Cidade Sem Vestígios”. Síntese de uma pesquisa de toda a vida, começa e termina pela última casa de taipa remanescente do período colonial em São Paulo, o solar da Marquesa de Santos.

Fora as igrejas, só ela teria sobrevivido à epidemia eclética da alvenaria de tijolos na segunda metade do século 19 e à febre do concreto burguês a partir do século 20. Para além do objeto do livro, é possível nele reconhecer um legado intelectual —o estudo sobre aquela casa, desdobrada em uma história social e material do espaço edificado, é também uma síntese das inúmeras contribuições deste que foi um dos maiores mestres da cultura patrimonial e dos estudos de arquitetura no Brasil.

Em “Viagem pela Carne”, livro autobiográfico de 2005, Lemos, morto nesta quarta-feira, resumiu os traços mais significativos de sua trajetória —”pintor de província, com alguns prêmios locais, escritor que por acaso mereceu um Jabuti na categoria ensaio, arquiteto de comedido desempenho e professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, titulação fatal a quem se dedica com amor à escola, mas sem nada de extraordinário para contar”.

As figuras do pintor, do escritor, do arquiteto e do professor foram ali evocadas com a conhecida modéstia de sempre. Não se tratava de exaltar o homem já ilustre na casa-grande dos 80 anos, nem suas grandes realizações profissionais, intelectuais ou políticas, tampouco de disfarçar sua expertise. O desafio era outro —apanhar-se em curso, no entrelaçamento entre obra e vida.

Nasceu em 1925 em São Paulo, onde se formou arquiteto em 1950, na primeira turma de arquitetura do Mackenzie. Ainda estudante, aproximou-se dos temas da arquitetura paulista, da taipa de pilão e das artes plásticas. Pouco antes de terminar o curso, a convite de Otávio Frias de Oliveira, projetou e construiu um belo edifício de apartamentos na rua Paim, pouco depois passando a coordenar o escritório paulistano de Oscar Niemeyer, que então vinha assumindo grandes encargos na nova metrópole nacional, como o Copan e o parque Ibirapuera.

Em 1954, ingressou na USP como professor de Teoria da Arquitetura, então chefiada por Eduardo Corona. Na escola fundada em 1948, a presença crescente de arquitetos modernos, a expansão do ensino de história e a aproximação com as ciências sociais e as artes estavam na ordem do dia e são reconhecíveis em seus primeiros escritos, como “Capelas Alpendradas de São Paulo”, “Roteiro de Arquitetura Contemporânea em São Paulo”, com Corona, e “Notas Sobre Arquitetura Tradicional Paulista”.

Enquanto o erudito se formava no gosto pelos arquivos, na investigação in loco e nos métodos de descrição e explicação técnica e social das obras, algumas de suas linhas principais de atuação despontavam —a história da arquitetura, o patrimônio cultural e a arquitetura residencial.

É desse período a publicação de seu primeiro grande livro, “Dicionário de Arquitetura Brasileira”, também escrito com Corona, publicado em 1972, primeiro empreendimento no Brasil de restituição de um vernáculo de arquitetura, garimpado em todo o país e na lusofonia.

Muitos desses interesses e materiais estão na base de sua tese de doutorado, defendida na USP em 1973, “Cozinhas, etc.”. Nela, os estudos da casa, do cotidiano familiar e dos trabalhos domésticos foram informados por suas leituras de Gilberto Freyre e Ernani da Silva Bruno, e animaram boa parte de suas produções desde então, como “Habitação Popular Paulistana”, “Alvenaria Burguesa”, e sua tese de livre docência, defendida em 1984, “História da Casa Brasileira”.

Não por acaso, Lemos foi um dos fundadores e dos mais entusiásticos defensores do Museu da Casa Brasileira, fechado em 2023 pelo governo do estado de São Paulo.

Em todos esses trabalhos, o estudo dos espaços, objetos e usos domésticos era revisto à luz da história das técnicas e da cultura material, da antropologia da família e da sociologia rural e urbana. Não se tratava de abstrair as fronteiras da arquitetura, mas de contrapô-la aos estudos do cotidiano, da casa, das técnicas construtivas, da família, do mobiliário, da alimentação, seja na curta, seja na longa duração.

E se o refinamento metodológico, documental e interpretativo constitui um polo fundamental de suas contribuições acadêmicas, o autor também se notabilizou pelos esforços de popularização daqueles temas. Empenho que se estendeu em sua notável militância institucional em defesa do patrimônio cultural, junto a museus, coleções iconográficas e órgãos de preservação como o Condephaat e o Iphan.

No trânsito entre a universidade e outras instituições, não foi menos obstinado seu papel na divulgação das questões de arquitetura, habitação, urbanismo e patrimônio. Tratava-se de reafirmar compromissos com o debate público, a formação de opiniões e a construção de políticas a seu respeito. Sua colaboração na imprensa foi incansável em revistas de arquitetura e nos grandes veículos.

A coletânea “Da Taipa ao Concreto”, de 2013, testemunha a amplitude e relevância social das questões da área —os vetores de ocupação do território e da urbanização, o processo de periferização e verticalização, as mudanças nas formas habitacionais e tecnológicas, os lugares simbólicos das coletividades, os mecanismos institucionais e jurídicos de salvaguarda, iniciativas de demolição, tombamento e restauro.

O recurso nesses escritos a uma prosa mais livre, ora provocativa, ora persuasiva, entremeia-se a achados interpretativos e propostas concretas. É que sua modéstia é apenas a face mais visível de uma trajetória que distingue esse grande mestre da história da arquitetura em cada uma de suas inestimáveis contribuições ao conhecimento das produções arquitetônicas na história e no presente do Brasil.



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