Opinião – Bob Wolfenson: Ao fotografar Sebastião Salgado, senti o calor de alguém extraordinário

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Opinião – Bob Wolfenson: Ao fotografar Sebastião Salgado, senti o calor de alguém extraordinário


Tudo já foi dito sobre Sebastião Salgado, desde sua extrema coragem de testemunhar conflitos e guerras mundo afora, passando por suas imagens dos grandes êxodos de refugiados pelo planeta, dramatizadas por seus céus épicos e grandiloquentes, até o seu foco sobre as populações mais desassistidas e sua luta por fazer o mundo olhar para elas.

Além do seu ativismo ambiental, suas imagens sobre a Amazônia, a fauna, flora e seus povos originários. Documentários, entrevistas, exposições, palestras.

O Olimpo —as discussões sobre o melhor do mundo e de todos os tempos. Tudo veio à tona, expressando a grande aventura de uma vida invejável, intensa, movimentada, humanista e prestigiosa.

Falou-se muito ainda sobre a restauração literal, empreendida por ele e sua companheira, Lélia Wanick, de uma terra arrasada, herdada de sua família, a qual transformaram em floresta —um exemplo de que isso é possível— e que hoje abriga seu Instituto Terra. E os que não sabem nada disso, mas sabem de sua fama mundial, falam embevecidos dela também.

Afora isso, há ainda os que o acusam de estetizar a miséria e se beneficiar dela. Estou com a legião de admiradores. E a história se encarregará de calar seus detratores.

Nada do que li e ouvi —até dito por mim—, agora, na ampla repercussão por ocasião de sua morte inesperada, escapou dos que prestaram suas homenagens.

No entanto, optei por escrever sobre uma sessão de fotos que produzi no meu primeiro encontro com ele, e da qual guardei belas imagens e lembranças.

Era 2018, estava na preparação de uma exposição de retratos de muitas personalidades brasileiras e de alguns poucos internacionais, em São Paulo. Eu ainda estava às voltas com as auto-indagações que normalmente ocorrem às vésperas dos momentos finais de uma mostra, nos quais paramos para perguntar: o que falta ainda para este trabalho, quais são as lacunas?

Tive a sensação de que não poderia deixar de fora o maior de todos nós —fotógrafos—, Sebastião Salgado. Mas como realizar o sonho de retratá-lo, sem algum atalho, algum tipo de intermediação? Não sabia se ele me conhecia ou não. Consegui o email de seu estúdio, tomei coragem e escrevi pedindo para fazer um retrato seu.

Alguns dias depois, recebo a resposta de que ele estaria disponível, mas em Paris. Naquela ocasião já havia investido tudo no trabalho, mas me articulei e consegui o patrocínio na passagem, pela Air France. Foi um bate-volta. Eu estava um pouco ansioso. Como seria estar diante de um “superstar” do meu ofício. Só eu e ele, porque assim eram os meus retratos; sem narrativas, apoios, móveis ou encostos.

Cheguei ao endereço no canal de Saint Martin. Para um fotógrafo mortal como eu, aquele lugar era um templo sagrado com ares de escritório, estúdio, laboratório, acervo. Olhei tudo aquilo como um devoto. Depois dos salamaleques de apresentação, eu fingindo naturalidade, ofereci dois livros meus. Tomamos cafezinhos, e gentilmente me levaram a um pequeno tour pelas instalações, para ver se eu me interessaria por algum fundo daqueles para minha série. Fui guiado pelo casal Salgado.

Finalmente, ele mesmo falou: ‘vamos lá fazer este retrato’. Chegada a hora da sessão, fui um pouco ao sabor dos acontecimentos, tentando preencher os vazios —entre um clique e outro do obturador da câmera— com pequenos comentários e um mínimo de direção.

A presença belíssima —sim, porque ele era um homem muito bonito— daquele homem à minha frente, afora toda sua notoriedade, me intimidavam. No entanto, não poucas vezes estive atrás da máquina fotográfica diante de outros que admirava e também me intimidavam, minhas sensações foram, assim como com ele: será que estão gostando? Incomodo? Serei rápido.

Ou seja, eu tinha algum traquejo com a coisa e já tinha uma ideia de como gostaria da foto. Seria um close com um fundo desfocado. Em 20 minutos, eu tinha realizado o que havia me custado, em todos os aspectos, uma viagem até lá.

Achei pouco e, contradizendo minha premissa inicial, sugeri um novo passeio pelas salas de impressão e acabamento. Sebastião foi me contando seus processos, como eram as escolhas, me falou de câmeras, exposições, me mostrou caixas de fotografias que eram destinadas a colecionadores e amantes de suas fotos no mundo inteiro.

No curso desta pequena caminhada fui prestando atenção à sua liturgia e, claro, fotografando cada gesto de meu anfitrião. Por fim, quando acabamos, fui guardando minhas coisas. Pelo fato de eu ter ido especialmente à Paris para fotografá-lo, talvez o tenha sensibilizado ao ponto de ele me convidar para almoçar do outro lado do canal num restaurante de sua intimidade.

Muito embora, eu já tivesse guardado tudo, ir até o outro lado da rua atravessando a ponte sobre o canal me parecia uma nova oportunidade de fotografá-lo, agora, de uma forma que eu não previra.

E assim fomos, naquele momento, eu mais relaxado e atrevido, pedindo a ele que fosse e voltasse pela pequena ponte, repetisse a caminhada pela calçada, subisse e descesse uma escadaria que havia no caminho e passasse e repassasse na frente do restaurante envidraçado aonde iríamos almoçar —e do qual fiz fotos dele emoldurado pela janela de vidro.

Enfim, estas coisas chatas que os fotógrafos pedem a seus retratados em busca de algo inédito e quase nunca alcançam. A imagem que escolhi para a minha exposição foi a que eu já tinha em mente quando decidi fotografá-lo.

O rosto de perto com seu olhar para dentro da objetiva. Mas, agora, curiosamente, alguns anos depois, sinto que o pequeno trajeto nas bordas do canal de Saint Martin resultou em imagens, digamos assim, não tão vistas. E, a meu ver, mais instigantes.

O que se revelou nesta breve passagem, foi para mim uma surpresa ao ver o quão generoso um homem daquela envergadura foi ao se deixar fotografar da forma que se deixou. E, mais que isso, me deu a certeza de que fiz a coisa certa ao empreender o esforço de ir ao seu encontro, sobre o qual retive na memória —o acolhimento e calor de um homem extraordinário.

Se haveria alguma intercessão, entre nós, com relação ao ofício de fotógrafo, seria a de ambos estarmos uma parte da vida atrás de uma câmera, cada um com seus temas. Ele com sua genialidade.



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