Participar de velórios alheios nem sempre foi decisão voluntária. Num antigamente daqueles até recentes, era difícil desviar de certos ritos mortuários em plena sala de estar. Tipo eu, bem criança, indo beber água na cozinha. E minha tia-avó, de terço na mão, em cima da mesa. Formando uma fila que saía do apartamento e se estendia pela escada de serviço do prédio, dois andares para baixo.
“Vem ver de perto”, cochichou meu pai, me puxando pela mão até tia Neném, que morreu idosíssima, apesar do apelido. Impressão minha ou estava de camisola? “Ordens expressas: foi a que usou nas núpcias…”. E não só. Dentro do caixão, um maço de cartas amarradas com fita vermelha e assinadas por “Adolfo”. Alguém que, veja bem, não era meu tio-avô.
Ou seja, no apagar das luzes de sua existência, aquela pudicíssima figura brindou a todos com um fiapo a mais de humanidade. “Velório é isso, minha filha. Verdades aparecem.” E completou: “Aprenda!”.
De lá para cá, ao receber convocações para qualquer despedida social da vida, costumava me perguntar: vou por quem morreu? Ou por quem ficou?
A segunda opção me parecia mais frequente. São os parentes e amigos surpreendidos pela morte súbita ou exauridos pela luta prolongada que desejam minutinhos de escuta, palavras protocolares, porém sinceras, mas sobretudo um abraço e um singelo copo de água.
Ontem, porém, percebi mais aflorada a terceira opção possível. Nos arranjos para rachar os custos de uma coroa e decidir em que carro iríamos ao velório do pai de uma conhecida, ouvi que eu não precisava ir. Nem éramos tão chegados assim —eu, a filha do morto e o próprio, que nunca vi mais vivo.
Então pensei: é por isso mesmo que eu vou.
Quem tem que ir, indo, realmente consola. Mas, a julgar por minhas cerimônias do adeus, vejo que foram os que não precisavam ir que me confortaram mais. “Você, por aqui? Desviado de sua rota habitual? Sem choro forçado nem desmaio ‘fake’? Sem assuntar se o enterro é VIP? Guiado não pelo que o povo poderia falar, mas pelo desejo de um afago não obrigatório?” Era o que me passava pela cabeça ao murmurar apenas “obrigada por ter vindo”.
Acho que aprendi, como meu pai aconselhou. Uma verdade é que vamos muito por nós mesmos, né? Uns chamarão de ego. Direi que também é um fiapo a mais de humanidade, esse que segue na gente.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.





/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/previsoes-horoscopo-do-dia.jpg?w=300&resize=300,300&ssl=1)











/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/previsoes-horoscopo-do-dia.jpg?w=150&resize=150,150&ssl=1)