Costumava acontecer aos sábados, feito um dueto de aves raras. Da vitrola de Tio Wando vinham os gorjeios de Maria Callas, que alcançava notas comoventes afirmando que “l’amour est un oiseau rebelle…”. Do outro lado da vila, de uma imensa gaiola, a arara dos Caroprezzo grasnava “Ana Tinaaa! Ana Tinaaa!” —numa ária tão estridente que teria perfurado os tímpanos de Bizet.
No entanto, ninguém ali reclamava da cacofonia doméstica, que ressoava também a carros lavados entre conversas berradas e crianças extrapolando decibéis nas brincadeiras de pique-tudo.
Ana Tina, sempre tão cantada pelo psitacídeo, não se misturava mais com fedelhos. Do primeiro pacote de Modess ao pré-vestibular para filosofia, floresceu. Ainda que bem diferente da irmã mais velha e popular, Marcinha: duas vezes eleita “Brotinho da Primavera” pelo Aquidabã Tênis Clube.
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Primogênito de Tio Wando, Frederico também já tinha atravessado a fase da voz grossa e dos cabelos na perna. Na vila era considerado mais bonito que o vocalista do A-Ha, de olhar mais 43 do que o do Paulo Ricardo no RPM.
Fazendo gosto na união de dois jovens tão “tchucos” e promissores, as famílias investiram pesado num namoro de sofá com incorporação de clãs. Havia, porém, um entrave: Frederico achava Marcinha linda, mas um tédio.
“Ela não tem assunto, pai. Só escova cabelo e ouve Menudo”. Ao que titio retrucava: calma, paciência. Os Caroprezzo eram gente muito boa, de valor. Marcinha levava jeito para futura Luiza Brunet! “É, mas quando vou lá, prefiro conversar com Ana Tina. Tô tirando músicas para a arara dela no violão!”
Ninguém precisava de um canário de mina para notar ali o alerta de perigo: a arara bastava. Conversa daqui, bota a ave para ouvir The Doors ali, o coração ciscou diferente. Até que Seu Vincenzo, pai das garotas, foi tomar satisfação: qual Caroprezza era a consorte, afinal? Estavam ambas enrabichadas pelo “stronzo”! Em meio a esculachos dignos do libreto de uma opereta trágica, portas foram batidas em uníssono.
Naquela noite, enquanto Frederico tomava o primeiro porre da vida —sim, o que na manhã seguinte o faria acordar jogado na escadaria da igreja—, um provável curto-circuito pôs fogo na vila. Carregando baldes para lá e para cá, na escassez de água gasta na lavagem semanal dos carros, Wando e Vincenzo reuniram-se na força do ranço e da solidariedade humana. Enquanto a arara de Ana Tina, provando que o amor é mesmo um pássaro rebelde, cantarolava, em alto e bom som, “come on, baby, light my fire”.
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