Opinião – Bia Braune: Tanto tempo depois, nada havia me preparado para aquele retrofit facial

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Opinião – Bia Braune: Tanto tempo depois, nada havia me preparado para aquele retrofit facial


A história a seguir se deu na mesma semana em que a influenciadora Andressa Urach debutou um novo par de olhos nas redes sociais, após uma arriscada cirurgia que pintou suas córneas de azul calcinha. Ou seja: em termos de procedimentos estéticos e escalafobéticos, nada mais prometia me chocar.

Implante de covinhas? Nhé. Lifting da mãe da Kim Kardashian? Bocejo de tédio. Quem sobreviveu à década de 1980 carrega marcas que laser algum será capaz de apagar. Essa, pelo menos, era minha convicção enquanto esperava pelo teleférico que tanto tempo depois me levaria até ela: Eva.

Não a primeira mulher, “conja” bíblica feita por Deus a partir da costela de Adão, mas a garota de fibra de vidro feita pelo escultor Fernando Quincas de Almeida. Com 45 metros de comprimento, ela ocupou o parque de diversões Playcenter, mas também a memória de uma geração nos anos 1980 e o estacionamento de vários shoppings pelo Brasil afora.

À época, filas e mais filas se formavam diante da bonecona loura e de olhos azuis estilo Andressa Urach. No entanto, era por um buraco próximo a seu dérrière, ou traseiro (perdão aos leitores anatomicamente sensíveis), que a pirralhada podia entrar, com a promessa de uma aula de biologia ao vivo. Atravessando suas vísceras e colando chiclete no sistema nervoso central, era mole driblar o segurança e transformar em pula-pula a língua que subia e descia graças a um motor de Fusca.

O elemento mais impactante desse subgênero mirim de body horror vinha, porém, de fábrica: um feto que rodopiava e piscava feito luzinha de Natal no útero de acrílico e espuma. Se algum pai ou professor questionava a incorreção daquela gravidez na adolescência? Claro que não. Estávamos todos ocupados com nosso zeitgeist, lendo no recreio “Eu, Christiane F. – 13 Anos, Drogada e Prostituída“.

Na meia-idade, aposentada entre a praça do Suspiro e o morro da Cruz em Nova Friburgo, Eva hoje é revisitada por quem ainda cultiva saudade, além de medo e fascínio por ela. “Coisa de criança”, pensei, até descer do teleférico e quase dar um grito. Nada nem ninguém —de Donatella Versace ao Ken Humano— havia me preparado para um retrofit facial tão extremo.

Um reboco com a força de mil microagulhadas e uma catarata do Iguaçu de hidrogel haviam desfigurado a lembrança tão terna e equivocada da infância. Como nos versos daquela música do grupo Rádio Táxi, só sei que senti algo parecido com o “fim de uma aventura humana na Terra”. Minha harmonizada Eva, Evaaaa.


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