“Não sou eu quem me navega/ quem me navega é o lalalá.” Parafreasendo o timoneiro Paulinho da Viola —mas com os vidros fechados, pra não piorar a poluição sonora da cidade—, costumo dirigir cantarolando. Numa espécie de karaokê automotivo, com a voz feminina do GPS fazendo backing vocal.
“Em 50 metros, vire à direita no Passeio Ernesto Nazareth”, me cantou a dita cuja outro dia. Uau. Que glorioso, fazer manobra no logradouro que homenageia o gênio do piano e do choro. No que engatei a ré e uma versão de “Odeon” com Nara Leão, não cheguei nem à parte do “ai, que lindo/ ai, que triste/ ai, que bom”: o tal “passeio” era apenas uma tripa de asfalto.
Fico muito incomodada quando vejo nas vias públicas de grande circulação nomões irrelevantes a cada esquina, enquanto brasileiros tão mais merecedores se escondem em plaquinhas de becos e vielas —isso, claro, quando há plaquinhas.
Graças a elas e suas notas explicativas, vira e mexe nos geolocalizamos no encontro de um tio-avô inexpressivo (mas que deixou polpuda pensão vitalícia a uma parenta solteira da Câmara Municipal) com a data de uma batalha na fronteira com o Suriname (que coincide com o aniversário de um vereador).
De uns tempos para cá, sobretudo nas capitais, até vem acontecendo um troca-troca nominal de endereços. Uma inversão no sentido ideológico de certas pistas, que destitui sabidos torturadores, racistas recreativos e genocidas históricos desse espaço tão nobre, sim, que é o olho da rua.
No entanto, a injustiça em forma de CEP ainda impera. Segundo pesquisa de 2017, dos 377 responsabilizados pela Comissão Nacional da Verdade, muitos seguiam homenageados em quarteirões de todo o Brasil, somando 2.000 km de absurdo. Enquanto suas vítimas, lembradas em geral nas áreas periféricas das cidades, perfaziam pouco mais de 150 km.
Se essas ruas fossem minhas, eu mandava rebatizar —e caprichando nas notas lúdicas. Em vez de Presidente Costa e Silva, a ponte Rio-Niterói seria ponte Cauby Peixoto, que era nativo e não tocava o terror, mas “Conceição”. Por todo o país, criaria rotatórias Elis Regina —em referência à sua performance em “Arrastão”— e até mesmo largos Sarajane, porque vias costumam ter duplo sentido, abrindo rodinhas e caminhos.
Todas as vertentes da MPB seriam recapeadas, não deixando nenhum Shimbalaiê, Xibom Bombom ou Zum de Besouro de fora desse projeto de reurbanização popular. Lembrando que, no lirismo dos GPS de SP, já há uma travessa Nuvem de Lágrima.
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