Quando me diziam que ele morava na Lua, eu logo o imaginava dando expediente num escritório daqueles à moda antiga, com secretária que toma notas e disca o telefone usando lápis com borracha na ponta. “Doutor são Jorge, seu dragão na linha um.”
Quando tinha eclipse, então, eu olhava para o céu fantasiando caixas e mais caixas de mudança —e ele sendo despejado às pressas. Sem ter onde encostar sua lança, quiçá pendurar o paletó. Tendo que batalhar por uma vaga no lado mais obscuro do corpo celeste, que, segundo as vitrolas da minha família, já era ocupado pelo Pink Floyd.
Cá embaixo, anos se passaram até que eu pudesse ter uma relação mais aterrada com são Jorge. Ele que é Oxóssi baiano, Ogum carioca e corintiano doente em Itaquera. Tendo sido, de certa forma, até demitido. Isso lá para os idos de 1969, quando o papa Paulo 6º oficializou a dúvida sobre sua existência histórica e o removeu do santoral oficial católico. Por sorte, Jorginho sempre foi entidade CLT, com carteira assinada em religiões diferentes.
Graças às minhas próprias horas extras na cidade do Rio de Janeiro, não terei este 23 de abril como feriado. Assim que o dia raiar, não estarei metida no mar vermelho de gentes que se abre no glorioso subúrbio de Quintino, em frente à sua igreja matriz. Onde a missa projetada em telões gigantes mobiliza fiéis de vários cantos e cultos, bem como ateus como eu –que temos a descrença e o cinismo muito dificultados pela beleza das festas populares.
Não poderei assistir aos fogos de artifício nem vibrar com o solo de clarins quando brotar a alvorada. Não serei testemunha do sacerdote que erguerá um cálice com o sangue de Cristo enquanto do lado de fora, na calçada, crédulos de todas as matrizes possíveis levantarão um brinde comovidíssimo de caipirinhas.
Da cabala à quimbanda, numa roda que tinha até hare krishna ocasional e congregado mariano convicto, já vi o mesmo baldinho de cerveja ser multiplicado em encantadoras encantarias. Numa reunião de credos embebida em amor ao próximo e também cachaça.
Tão laica quanto sóbria, atravessarei a madrugada batucando apenas meu teclado e ouvindo ao longe todos os tambores que soam feito um coração. Na esperança sincrética de que até o deus Shiva será invocado ano que vem. A fim de que tenhamos mais braços para bater palma, segurar salsichões passados na farofa e um pratinho com a tradicional feijoada de são Jorge, é claro. Ogunhê, amém e tim-tim.
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