Às 8 da manhã, começa a sinfonia. Estando a plateia acordada ou mezzo dormindo, seja dia útil, seja sábado autorizado pelas convenções de condomínio: não importa.
Em algum lugar com a melhor acústica da vizinhança, um martelo há de abrir os trabalhos do naipe de picaretas, pra que uma makita afinada entre mi e fá sustenido –na frequência capaz de rachar os cristais do juízo– possa solar feito violino spalla. Tudo culminando na emissão vocal perfeita de um tenor de chinelas, que gingará ao som do libreto da vez: “Que popotão, popotão grandão/ que popotão, popotããão grandããão”.
Reger obra em casa não é pra qualquer um. Há que se respeitar a erudição dos prestadores de serviço especializados e se curvar ante a malemolência popular dos faz-tudo. Porém, tenho pra mim que perrengues do lar não obedecem ao andamento rigoroso de uma orquestra, mas ao “allegro vivace” caótico de um reality show musical. No caso, o “Estrelas da Minha Casa”.
As seletivas começam a partir de entupimentos e panes elétricas que me fazem sair por aí em busca de novos talentos da construção civil. Pego uma dica de engenheiro aqui, um contatinho calculista ali, e pronto: forma-se o elenco responsável pelo paredão cheio de infiltrações da minha sala de estar.
Rafael, o mestre de obras, logo se revela um talento da sofrência. Entre planilhas orçamentárias devidamente estouradas, me consola com vídeos da esposa Karla –decoradora e cover da Marília Mendonça– entoando um sucesso inédito de sua autoria, “Moça do Tempo”. Balada sobre as intempéries do amor que eu acharia bem boa, não estivesse tão preocupada com o telhado que ele também ficou de ajeitar.
Pendurado na fachada, Ernani é quem batuca latas de tinta com a perícia suave de um percussionista de jazz. De olho na minha estante de DVDs, pergunta pela janela se “Ascensor para o Cadafalso” é “aquele filme que tem trilha do Miles Davis”, improvisando assuntos com suingue e muito verniz.
Fazendo coro, Serginho na assobiante limpeza de calhas e Amílcar nos metais, esmerilhando um portão emperrado. Sintequeiro do synth pop, Arly arranca melodias junto com os tacos do chão, enquanto a dupla César e McGyver iça móveis. Tendo sempre o DJ Severino no comando das carrapetas do gás.
Fechando olhos e apurando ouvidos, acredite: os ritmos se fundem curiosamente harmônicos, como se numa celebração doméstica e cacarecofônica ao saudoso gênio Hermeto Pascoal. Então descanse em paz, mestre, com nossa salva de britadeiras em sua homenagem.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2582298724.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)




/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2582376787.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)



/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2582571641.png?w=300&resize=300,300&ssl=1)


/catracalivre.com.br/wp-content/uploads/2026/03/creation-2582298724.png?w=150&resize=150,150&ssl=1)



