Opinião – Bia Braune: Duas polegadas de recheio a mais

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Opinião – Bia Braune: Duas polegadas de recheio a mais


Manequim: 44. Cintura: 60 cm. Do joelho aos pezinhos delicados que calçavam 36, uma proporção áurea que subia perfeitamente de lá até os quadris. Sim, os lendários quadris que, segundo tabela oficial de medidas, teriam feito a mais bela mulher do Brasil perder a faixa de Miss Universo por duas polegadas em excesso. Vilanizando, assim, o aspecto mais deleitoso daquela famosa teteia: seu recheio.

“Tem de creme, doce de leite, chocolate… Já decidiu, moça? Vai querer Martha Rocha de quê?”, me perguntou a atendente por detrás da vitrine de doces, interrompendo devaneios e botando certa pressinha. Até porque a fila estava aumentando e eu ali, imersa em fatos históricos e padrões de beleza retrô, sem escolher uma miss ideal para harmonizar com o café.

Pertencente à família dos pães doces, era uma guloseima assemelhada aos travesseiros portugueses e aos “beignets” franceses, porém cremosa como nunca tinha visto. Na falta de terminologia “foodie” o suficiente, preferi, então, considerá-la quiçá onírica, tendendo ao sonho de padaria, posto que uma densa camada de açúcar impalpável a deixava ainda mais poética.

Até então, em se tratando de dulcíssimas Marthas Rochas, conhecia apenas o bolo criado de Curitiba para o mundo, numa deliciosa tentativa confeito-estratégica de homenagear a musa baiana e, por que não, embargar com legítimo azedume pátrio a vitória, em terras do Tio Sam, da Miss Estados Unidos. Uma moçoila da Carolina do Sul que, segundo a opinião pública da época, usurpou a coroa da nossa soberania sem valer sequer um donut furado.

Antes, porém, que algum norte-americano apareça com a cútis tingida pelo excesso de bolos de cenoura, taxando este causo por seus 50% de inverdade histórica, vale relembrar que a própria lenda das duas polegadas a mais de quadril também era caô. Mera tentativa de justificar aquela amarga derrota perante os gringos, botando uma culpa numérica no detalhe que justamente dá sanção à nossa gostosura 100% nacional.

Mais de 70 anos depois, quando o que está em jogo não é mais quem leu “O Pequeno Príncipe”, mas quem almeja o manto e o trono da dominação planetária, nutro certa nostalgia por esse ingênuo embate Brasil x EUA. Folgando em saber que pelo menos a Martha Rocha tão original, morta em 2020, seguirá sendo doce lembrança. Louvada por presidentes, diplomatas e populares, ela até hoje viabiliza a mais pacífica consagração possível. Garantindo duas polegadas a mais no recheio de todos nós, a cada acompanhamento de um cafezinho.


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