À guisa de prefácio: bater perna em livraria, hoje? Chega a ser excentricidade nossa, quase um descaramento. Coisa de leitores fetichistas, que ousam frequentar estabelecimentos de rua. Escolhendo livros após folheá-los, afagá-los, quiçá cafungá-los em êxtase antes do “crédito ou débito?” decisivo.
Inclusive, na aba mais tátil desse amor físico, peço licença aos livros para puxá-los pela orelha: dobradura de papel tão fundamental para acasos e descobertas literárias que jamais aconteceriam em meio à falta de poética dos cliques e dos algoritmos.
A meu ver, dar valor a esses acasos é questão de vida ou morte. Tendendo mais à segunda, a contar pelo velório de uma conhecida do mercado editorial —que escrevia muito bem e foi bastante publicada, mas cuja estadia numa gaveta longínqua foi poupada graças a uma orelha.
Bem, o primeiro capítulo de tudo isso aconteceu anos atrás. “Preciso para ontem dos aparatos de um best-seller, quer?” Nota explicativa: aparatos são textos que vão na contracapa e nas orelhas, dando um gostinho da obra. E o personagem dessas aspas, afobado no convite, era um editor que me descolava uns bicos. “O autor desse livro é nomão, vende feito água, ninguém nem lê o que vem escrito do lado de fora. Dá seu jeito?”
O romance se passava numa cidadezinha americana assombrada não só por espíritos, mas pela chegada de um médium sexy que, em poucas páginas, passava o rodo em todas as almas do aquém e do além. “Quantos elementos intrigantes”, pensei. “Qual vou destacar numa orelha que ninguém há de ler?” Na certeza da impunidade, guiada pela audácia, escolhi um detalhe citado num único parágrafo, mas que ornava: a gola rolê do sensitivo pintosão.
De volta ao miolo da história, o clima era triste no velório da conhecida. Nenhum sinal de louros legados à posteridade. De repente, surge uma agente funerária com um livro debaixo do braço: o do gringo parapsicoboy magia.
Menos para me gabar, mais para preencher o silêncio sepulcral, comentei que havia escrito os textos daquele “lado de fora”. Indaguei se ela estava curtindo o caça-fantasmas bonitão de gola r… Nem completei a frase. Para bom entendedor, meia orelha basta. A agente, rata de sebos, lia de tudo e tinha comprado o best-seller pelo aparato. “A gola rolê da morte me pegou demais!”
Epílogo: por gentileza daquela leitora de orelhas, a falecida não imortal da ABL foi promovida a um gavetão nobre, na entrada do cemitério. Um quarteirão, a pé, da minha livraria favorita.
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