Opinião: ‘Apocalipse nos Trópicos’ é aliado na cruzada contra a captura da fé pela política

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Opinião: ‘Apocalipse nos Trópicos’ é aliado na cruzada contra a captura da fé pela política


“Apocalipse nos Trópicos” superou um milhão de espectadores na Netflix e entrou para a lista dos dez filmes em língua não inglesa mais vistos em todo o mundo na semana de estreia.

Essa performance confirma a emergência global dos temas abordados no documentário, como a escalada da extrema direita, a pandemia de desinformação e o fenômeno que o filme apresenta com pioneirismo e acurácia: a captura da fé pela política. Ou, mais precisamente, a substituição dos princípios cristãos por interesses políticos na conduta e na pregação de importantes lideranças evangélicas.

Indicada ao Oscar por “Democracia em Vertigem”, de 2019, Petra Costa volta suas lentes para um contexto ainda mais preocupante.

Em “Apocalipse nos Trópicos”, o que vemos não é uma abordagem ingênua dos tentáculos do pentecostalismo nem um olhar preconceituoso sobre os evangélicos, como apontam algumas críticas apressadas, inclusive nesta Folha. Ao contrário, trata-se de um filme contundente, que se alia à população evangélica numa cruzada oportuna e urgente contra a atuação de lideranças religiosas cada vez mais comprometidas com o poder e menos com a religião —lobos em pele de cordeiro, para pegar emprestada a alegoria bíblica proposta por Mateus (7:15).

Uma frase, destacada por um internauta numa rede social, sintetiza com precisão o que está em jogo: “Tira a sua política da minha fé”, escreveu, reagindo ao filme.

Foi com essa preocupação que Petra entrevistou pastores como Silas Malafaia, percorreu cultos em comunidades periféricas e revelou o papel das igrejas como espaços de sociabilidade.

O crescimento do número de evangélicos —de 15,4% da população em 2000 para 26,9% em 2022, segundo o IBGE— vem acompanhado de uma profunda transformação cultural.

Diante do desmonte neoliberal que deteriorou as formas de vida comunitária e estimulou a cultura do individualismo e da competição, o filme mostra que as formas de convívio partilhadas pela população evangélica moldam discursos e escolhas políticas. Numa das cenas mais reveladoras do filme, uma antiga eleitora de Lula, ainda simpática às suas ações e propostas, explica por que prefere votar em Bolsonaro. “Ele é homem de Deus”, diz.

Hoje, um em cada quatro brasileiros é evangélico, proporção que tem aumentado ainda mais depressa em contextos de vulnerabilidade social. Essa escalada não pode ser dissociada da ascensão de novas forças políticas.

Com uma dimensão organizacional que combina poder eclesiástico e gestão empresarial, parte das igrejas vêm pautando seu plano de expansão na lógica do lucro, reinvestimento e arrecadação agressiva. Adotando estratégias de marketing, o fenômeno impacta fortemente o comportamento eleitoral à medida que pastores não medem esforços para orientar seu rebanho a eleger bancadas conservadoras.

Silas Malafaia é uma espécie de síntese desse método. Apoiador de Lula em 2002, o pastor se tornou um pilar da coalizão bolsonarista em 2018. À frente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro, Malafaia comanda um sistema de influência também presente em denominações ainda maiores e com mais acesso à mídia, como a Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo.

Conhecido dos brasileiros há décadas, o evangelismo midiático das rádios e televisões foi potencializado nas redes sociais. É emblemática a cena em que Malafaia estende o celular à câmera e diz: “Aqui a gente destrói os caras”. Não se trata de mera inovação tecnológica. O cientista político Leonardo Barbosa, do Cebrap, usa o termo “partido digital bolsonarista” para se referir a esse grupo, uma espécie de legenda informal que arregimenta seguidores, decide eleições e orienta a mobilização social.

Registrada no documentário, a nomeação de André Mendonça, o ministro “terrivelmente evangélico”, para o Supremo Tribunal Federal, ilustra a influência de lideranças evangélicas sobre os poderes da República. Todos eles.

“Apocalipse nos Trópicos” tem a sensibilidade de distinguir acolhimento espiritual e interesses políticos —e exibi-los como coisas distintas.

Fiéis são mostrados com muita dignidade, em especial as mulheres negras, as mães solo e os trabalhadores que recorrem à fé em busca de conforto emocional e apoio comunitário. A crítica, justa e necessária, se volta para os pastores que circulam em jatinhos e carros de luxo enquanto moldam estratégias para expandir seu poder.

Ao mesmo tempo, Petra convoca as esquerdas a enxergar os valores centrais desse segmento religioso – fé, trabalho, justiça social —a fim de acolher essa população e elaborar uma narrativa atraente para milhões de brasileiros. Sem isso, continuará incapaz de disputar esse campo com os setores conservadores.



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