“Não é Anora, é Ani.” Essa é uma das frases que sintetizam o filme queridinho do momento, “Anora”, dirigido por Sean Baker. Em 2025, continua a discussão: ainda precisamos de histórias que exploram o corpo feminino sob a ótica masculina? Segundo o júri de Cannes, que ao trabalho a Palma de Ouro, e a calorosa recepção ao filme, a resposta parece ser sim.
O filme nos apresenta Anora, vivida por Mikey Madison, como uma stripper e garota de programa supostamente protagonista. Ela rapidamente se torna uma figura secundária na própria história, apenas um dos problemas evidentes do roteiro.
A cinematografia, dominada pelo olhar masculino, foca as interações sexuais de Anora com os homens de forma desproporcional. Se Sean Baker pretendia desestigmatizar as trabalhadoras do sexo, essa tentativa é anulada logo no começo do filme.
Pode soar clichê, ou até excessivamente crítico, mas como audiência feminina fiquei profundamente incomodada durante as duas horas e 18 minutos de “Anora”. Sentada no cinema, senti um desconforto crescente enquanto escutava uma sala predominantemente masculina rir alto, transformando a experiência em algo ainda mais perturbador.
Antes de sua estreia oficial, “Anora” teve sessões disputadíssimas na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado. Apresentado inicialmente como um conto de fadas moderno, o filme mostra Anora como uma mulher assertiva que não tolera desrespeito. Conforme a trama avança, no entanto, ela é reduzida a um mero estereótipo.
Ani, que consegue peitar o dono do clube de strippers sobre direitos trabalhistas, se ilude ao ser contratada como namorada de aluguel de Ivan (Mark Eydelshteyn), um jovem que parece um adolescente, filho de um oligarca russo.
A princípio, Anora parece motivada apenas pelo dinheiro, mas rapidamente a narrativa a transforma em uma figura iludida e apaixonada por um jovem que a pede em casamento por mero divertimento. A desconstrução da esperteza de Anora causa estranhamento.
Em outras obras em que vemos strippers ou profissionais do sexo, como “As Golpistas“, filme de 2019 dirigido por Lorene Scafaria, há uma esperteza nessas mulheres, já que, geralmente, vêm de um contexto marginalizado. Claro que nada impede um ser humano de ser facilmente enganável, mas a forma como isso é colocado na história parece servir para que Ani se torne uma vítima que precisa ser salva.
Nesse ponto, o foco se desloca para Igor —Yura Borisov, indicado ao Oscar por sua atuação—, um capanga do oligarca russo apresentado como o “salvador” de Anora e retratado como um rapaz aparentemente gentil. Mas a narrativa recorre a uma retórica previsível, reforçando a ideia de que ela não seria capaz de resolver sua vida sem intervenção masculina —um artifício que Sean Baker insiste em tratar como indispensável.
A trama prioriza o desenvolvimento do “príncipe” russo e negligencia uma crítica mais profunda às estruturas de poder que sustentam a violência.
O filme falha em desenvolver a história pessoal de Anora; conhecemos pouco sobre sua família e ouvimos apenas breves menções de uma amiga. A trama se concentra em rivalidades superficiais entre dançarinas, reforçando o estereótipo da mulher competitiva com outras mulheres. A ausência de uma resolução satisfatória para a trajetória de Anora intensifica a frustração.
Ani é frequentemente rodeada por homens, já que poucas mulheres têm espaço significativo na tela. Ela também é colocada em situações que exigem dela um comportamento submisso.
Embora Sean Baker tente inserir algumas falas supostamente engraçadas para pintar sua protagonista como empoderada, o que apenas reforça um comportamento imposto pelo patriarcado na vida das mulheres, não há qualquer tentativa de crescimento verdadeiro da personagem.
O roteiro insiste em humilhar Anora, desde a negação de sua identidade —insistindo em chamá-la de Anora quando ela prefere Ani. A personagem é explorada sexual, psicológica e fisicamente, mas tudo é mascarado como se fosse uma grande comédia, já que o filme tenta transformar a violência em algo jocoso, com cenas de agressão apresentadas de forma cômica.
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Próximo aos minutos finais, fica a expectativa de uma reviravolta, na qual Anora poderia finalmente tomar as rédeas da situação. Contudo, o roteiro desmorona ainda mais. A protagonista, uma mulher jovem que passou por diversos tipos de agressões ao longo do filme, decide questionar o personagem apresentado como seu “salvador”, Igor, sobre por que ele não quis estuprá-la. Ela repete a pergunta mais de uma vez.
Assistir a esse diálogo é profundamente perturbador. Não é necessário ser mulher para compreender que esse é um dos maiores medos que muitas enfrentam. Apenas uma perspectiva masculina poderia inserir uma fala desse tipo em um filme e considerá-la apropriada, o que evidencia a falta de sensibilidade da produção ao lidar com temas tão graves como violência doméstica e abuso sexual.

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