Opinião: Angelina Jolie é uma estátua de cera em filme sobre Maria Callas

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Opinião: Angelina Jolie é uma estátua de cera em filme sobre Maria Callas


Em uma cena de “Maria Callas”, cinebiografia dirigida pelo chileno Pablo Larraín dedicada a uma das maiores cantoras da história, Angelina Jolie, interpretando a soprano, afirma que sua vida se resume à lírica. “Não existe razão na ópera”, diz a personagem. Callas incorporava à sua biografia as encenações da loucura que protagonizou por repetidas vezes durante a carreira, num entrelaçamento entre vida e obra. Decerto, é possível falar em um mito Callas, avivado ao longo de décadas em histórias que unem poder, sedução e tragédia.

Ocorre que o filme de Larraín, agora nos cinemas, não apresenta nenhuma outra cena interessante sob o aspecto historiográfico. Tampouco propõe um diálogo consistente com a linguagem operística. A intensidade dramática, tão associada ao gênero, se enfraquece diante das sucessivas rememorações da personagem, que mais se assemelham a videoclipes. Em geral, as inserções do passado durante os dias finais da cantora, período escolhido para o desenrolar do roteiro, não dimensionam a contribuição da figura retratada ao mundo da arte.

Desse modo, os pontos cardeais de sua biografia, causadores de uma personalidade fundada no “pathos” grego, não ganham relevo. A mãe de Callas, que explorava a filha, criticando-a por estar acima do peso, é reduzida à visita da irmã da cantora a Paris. Já a traição do bilionário grego Aristóteles Onassis, segundo marido de Callas, com Jacqueline Kennedy, viúva do presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, é lembrada de chofre, sem as cenas a bordo do iate Christina. O problema mais grave do filme, porém, está em Jolie.

No que se restringe ao “physique du rôle”, a estrela de Hollywood, com os lábios carnudos e o olhar penetrante, não faz feio. Mas basta respirar em frente às câmeras que a atriz deixa ver a superficialidade de sua interpretação, tornando-se o oposto de Callas. Sem causar prejuízos ao longa, Jolie poderia ser substituída por sua estátua de cera, exposta no Museu Madame Tussauds, de Londres. Caberia a ela encarar o drama de uma cantora que, em depressão, perde a voz. Dublando as árias, a atriz nem faz esforço para articular os músculos da face como as cantoras líricas, parecendo em descompasso com a música. Em entrevistas, Jolie disse que cantou em certas cenas, o que pode explicar o constrangimento.

Em suma, a atuação de Jolie também está em descompasso com a personagem, que mudou a ópera por sua desenvoltura cênica. Não sem razão, a crítica feminista denuncia o fascínio da indústria cultural pela decadência da soprano, numa busca pelo arquétipo da prima donna “solo, perduta, abbandonata” —sozinha, perdida, abandonada. Tal abordagem prefere as intrigas de sua vida pessoal a desenvolver um pensamento sobre a obra da artista. Em termos de repertório, Larraín propõe uma conciliação entre os títulos recuperados por Callas, como “Ana Bolena”, de Gaetano Donizetti, e árias mais conhecidas, não sem incorrer em uma série de clichês.

No auge, Callas deu uma amostra de sua arte no Brasil. Em 1951, ela viajou até o país, onde se apresentou no Theatro Municipal de São Paulo. A rigor, primeiro ela faltou à récita de “Aida” que abriu a temporada lírica, tendo sido substituída por Marina Greco. Só cantaria na cidade um mês depois, em “Norma” e “La Traviata”.

No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, interpretou novamente o papel-título de “Norma” e cantou em um recital beneficente. Na capital fluminense, protagonizou um de seus ataques, dando origem à rivalidade com a também soprano Renata Tebaldi. Numa das récitas, a italiana resolveu dar um “bis”, enfurecendo a concorrente. Callas, diz a lenda, altercou-se com o diretor da temporada, Barreto Pinto, e desferiu um tinteiro de mármore em sua cabeça.

Ao longo da história, o cinema contribuiu para que o mito Callas continuasse vivo. Afinal, a carreira da cantora coincidiu com o estabelecimento dos meios de comunicação de massa. O enlatado de Larraín, porém, não agrada quem tem o hábito de ir à ópera. Está aquém do mito, rebaixado à inexpressão de uma celebridade de Hollywood.



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *