Após cumprir dois anos em um centro de detenção juvenil, Wellington (João Pedro Mariano) é subitamente lançado à vida adulta. Durante esse período, seus pais foram embora sem deixar rastro. Enquanto o jovem está fazendo esforços para reencontrar a mãe, ele conhece Ronaldo (Ricardo Teodoro), um homem de 42 anos que sobrevive como profissional do sexo e vendendo drogas. Ronaldo desenvolve uma ligação tanto pessoal quanto profissional com Wellington, assumindo os papéis de mentor e amante. Ele também o introduz ao trabalho de garoto de programa.
A iniciação de Wellington sob a gestão de Ronaldo é problemática num primeiro momento, mas ele logo se adapta, renomeando a si mesmo como “Baby” quando o parceiro lhe diz para parar de agir como um após ser humilhado nas mãos de um cliente. Há uma preocupação dos roteiristas Gabriel Domingues e Marcelo Caetano, que também é o responsável pela direção, em encontrar o elemento humano em cada personagem, mesmo naqueles que conhecemos apenas fugazmente.
Ronaldo também apresenta Wellington a Priscila (Ana Flavia Cavalcanti), a mãe de seu filho, que agora está morando com sua namorada Jana (Bruna Linzmeyer). Aí está um dos aspectos marcantes sobre o filme: a sexualidade aberta e autoafirmada de seus personagens. Isso significa que novos tipos de famílias podem ser formados – tema que o diretor também expôs em “Corpo Elétrico”, seu primeiro longa. E também como aponta um dos amantes de Baby, Alexandre (Marcelo Várzea), um homem de meia-idade, que, nesse aspecto, a geração do rapaz é muito mais sortuda que a dele, livre dos tabus repressivos de anos atrás.
Os protagonistas, em seus primeiros papéis no cinema, representam contrastes marcantes: Ronaldo, com sua aparência e traços que evocam uma figura mitológica, contrapõe-se à juventude e beleza imberbe de Baby. Além da atração física, há também a ilusão de estabilidade e acolhimento de um para com o outro. A direção de Caetano ainda aborda a naturalidade e as complexidades da vida urbana contemporânea, explorando o sexo e as drogas sem excessos, mas com foco no aspecto interpessoal.
O filme não se limita a narrar os desafios do protagonista jovem ou a ilustrar a possessividade de Ronaldo, mas apresenta diversas expressões de alegria queer, desde a família escolhida por Baby — um grupo de jovens que fazem voguing nas ruas e no transporte público para ganhar a vida — até a convivência de Ronaldo e Priscila com seu filho.
O longa transforma-se, assim, em um retrato multifacetado de várias gerações e experiências de pessoas LGBTQIA+ em São Paulo. Há também enfoque em questões como o assédio policial e violência, evidenciadas em dois momentos cruciais na trajetória de Baby. Combinando essas perspectivas, “Baby” oferece não apenas uma narrativa, mas um panorama mais amplo das possibilidades e desafios de viver sendo quem se é.
Nesse sentido, “Baby” – bebendo na fonte do cinema de Wong Kar-Wai, Pedro Almodóvar e Claire Denis – é uma história de dependência e libertação, de desejos e dores, que exibe e dá boas doses de sensibilidade e intimidade mesmo quando aborda situações e personagens que podem ser violentos ou manipuladores.
A trilha sonora, que vai de Tom Jobim à Dalida, passando por Alcione, reforça que a decadência não define essas histórias. Cada personagem vive da melhor maneira que consegue, cruzando seus caminhos como colegas, amigos ou amantes. Por um tempo limitado, porém significativo.
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