Assassinato de um jovem ativista da extrema direita, aliado de Donald Trump, desencadeia ameaças nos EUA – e a repercussão preocupa o mundo
JC
Publicado em 14/09/2025 às 0:00
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O ambiente virtual é uma espécie de não-lugar em que tudo parece permitido, enquanto a sociedade ligada em rede global desenvolve mecanismos de inibição e proteção a respeito do que se passa no mundo paralelo das telas. Desde a fabricação do fogo por engenho humano, o conhecimento e a técnica podem ser utilizados em função do bem ou do mal, com a humanidade seguindo passos incertos na trilha do que considera certo ou errado. Nessa caminhada, a transmissão da realidade e do pensamento conectados em tempo real compõe mosaicos de difícil controle e imprevisível repercussão – mas já sabemos que o ódio, feito a pólvora que apregoa, se alastra rapidamente para quem cultua desavenças ou simplesmente se alia ao episódio brutal do dia que viraliza graças ao ímpeto compartilhado. A definição contemporânea diz muito: o ódio é viral.
A escalada que pode estar em curso nos Estados Unidos, depois do assassinato do jovem ativista Charlie Kirk, não vem do nada. Seu principal aliado, o presidente Donald Trump, alimentou e continua alimentando narrativas que despertam manifestações raivosas a favor e contra o que é narrado. A democracia norte-americana já estava em risco antes, atacada pelo próprio Trump, que agora se sente ainda mais à vontade para conduzir discursos e atos extremistas, sob o aplauso de parte da população, e o medo da outra parte.
Apenas dois dias após o assassinato, listas com possíveis novos alvos de atentados já circulavam nas redes sociais, ampliando temores e – pasmem – antecipando a celebração da violência, através de explícitas ameaças. Para os cidadãos alheios à corrente dos “haters” que, além de odiar em grupo, exaltam o ódio, as mensagens e imagens que não fazem sentido para o bom senso e ao mínimo prezar do valor da vida, tendem a ser menosprezadas como assunto digno de atenção. Mas é tudo que não podemos deixar acontecer, em qualquer parte do mundo: o desleixo com o poder de disseminação do ódio permite a ascensão de personagens políticos, em geral masculinos, identificados com a promoção e o estabelecimento do Estado de ódio, no qual o radicalismo é a régua, e a submissão, derrota ou extermínio do outro, a promessa que se pretende ver cumprida.
Ícone da tecnologia, da comunicação e do extremismo de direita, Elon Musk escreveu e postou, em reação à morte de Kirk: “Ou lutamos ou eles nos matarão”. A divisão da realidade em amigos e inimigos é estratégia comum aos ditadores e defensores de tiranias, ou mesmo àqueles que se fiam nas polarizações para galgar ou se manter no poder. A política praticada à luz do ódio é estreita, sem margem para o diálogo ou a superação dos problemas. A narrativa de uma guerra instalada já está em pleno avanço, com o desejo de vingança posto como algo inescapável.
A relação dos que praticam o ódio na política transcende fronteiras. Por isso, o mundo encara com preocupação o que se desenrola nos Estados Unidos.






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