O silêncio que sucede a morte e o caos da chuva que ninguém resolve

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O silêncio que sucede a morte e o caos da chuva que ninguém resolve


Em outras cidades com o mesmo problema geográfico do Recife, soluções existem desde a Idade Média. O que muda aqui são os gestores públicos.


Publicado em 08/02/2025 às 20:00



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Como fica a voz de quem é mudo de tanto não ser ouvido? Parece poético, mas é trágico. Quem não é ouvido grita e quem grita fica rouco. Uma vez rouco, ou você se cala para recuperar a voz ou silencia por perdê-la insistindo.

O silêncio de quem gritou é angustiante, porque é o vazio completo daquilo que se julgava ser a única ferramenta à disposição para alcançar um mínimo de dignidade e segurança: a voz.

Os moradores do córrego da bica, no bairro de Passarinho, no Recife, tentaram ser ouvidos quase 250 vezes ao longo de 10 anos.

Gritos

Esses cidadãos queriam uma intervenção, mesmo que fosse uma lona, exatamente na barreira que desabou essa semana e matou duas pessoas. Pediram 247 vezes em uma década. Isso inclui as gestões de dois prefeitos do mesmo partido que se sucederam no poder municipal.

Somente no período do atual gestor foram quase 150 protocolos pedindo alguma intervenção no local. Em todo o ano de 2024 foram 12 pedidos de apoio para evitar a tragédia. Em 2025, percebendo que a situação estava mais grave, os moradores registraram no espaço de um mês outros 11 protocolos.

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Morte

O resultado é que duas mulheres, mãe e filha, terminaram soterradas nas últimas chuvas.

Isso porque não se está contando aqui o número de mortos por choque elétrico, devido à instalações irregulares que não foram adequadamente fiscalizadas.

No caso do Córrego da Bica, a secretaria executiva de Defesa Civil do Recife enviou uma nota ao Jornal do Commercio afirmando que “a residência afetada era constantemente monitorada e não representava um risco considerado alto”.

Não representava risco e morrem duas pessoas. Imagine se representasse. Tinha algo errado com a barreira e com o monitoramento da secretaria.

Quando pedir não adianta, quando gritar não adianta, o silêncio vem de um jeito ou de outro. Veio com morte.

Nunca antes

Enchentes no Recife são relatadas desde 1632 e os transtornos foram piorando na medida em que a cidade cresceu e “subiu” para os morros. Mas nada disso é novidade.

Apesar do ambiente de ineditismo forçado que os gestores gostam de vender quando uma tragédia acontece, de que a chuva da vez é sempre “a maior da história da humanidade”, é possível preparar-se para a próxima tempestade, mesmo que ela seja maior do que a de ontem.

Cidades em situação geográfica muito pior do que o Recife conseguem se adaptar. E não é um fenômeno moderno com soluções de alta tecnologia.

Idade média

Apenas para citar algumas dessas cidades, Amsterdã e Roterdã são velhas conhecidas nos Países Baixos, que chamamos de Holanda. O “baixo” do nome oficial é porque a região fica muito abaixo do nível do mar. Mas não são únicas no mundo.

Baku, no Azerbaijão, é outro exemplo. Nova Orleans, na Louisiana (EUA), é outra cidade abaixo do nível do mar. Todas sofrem com o risco de inundações e todas aprenderam a controlar isso com sistemas de canais, bombas e diques.

No caso de Roterdã e Amsterdã, alguns sistemas começaram a ser construídos na Idade Média, quando o Recife nem existia.

Mesmo planeta

O problema são as mudanças climáticas? Mas essas cidades estão dentro do mesmo planeta em que está o Recife, até onde se sabe. Por que aqui é diferente?

Quando condições parecidas são comparadas apresentando resultado completamente diferente, busca-se o que não se repete nas duas amostras para identificar o problema.

Nesse caso, são os gestores do Recife que nunca foram efetivos para resolver os problemas causados pelas chuvas, seja com enchentes ou com deslizamentos de barreiras.

Os mortos nas chuvas que o digam, mesmo sem voz.





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