Em entrevista à Rádio Jornal, o ex-deputado federal e fundador do PSDB afirma que a democracia brasileira está pervertida. Ele lança livro no Recife.
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Xico Graziano está no Recife para lançar seu livro, O Caipira e o Príncipe”, no qual relata décadas de participação ativa na política brasileira, como fundador do PSDB, coordenador de campanhas políticas e fiel companheiro de Fernando Henrique Cardoso antes, durante e depois da Presidência da República. SObre isso, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Passando a Limpo.
Na entrevista à Rádio Jornal, Graziano escancara uma percepção que há anos se desenha silenciosamente no debate público. E faz isso com uma expressão forte, embora carregada de verdade. A democracia brasileira está “pervertida”, segundo o professor.
A palavra carrega peso histórico e moral e não se trata do sentido libidinoso que costuma ser associado ao termo. Pervertida aqui significa degenerada, desmoralizada e contaminada por vícios profundos que comprometem sua capacidade de produzir decisões orientadas ao interesse público. O diagnóstico é de uma exatidão preocupante.
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A raiz estrutural
O problema, segundo Graziano, não está concentrado em um partido, em uma ideologia ou em um governo isolado. Ele é sistêmico. As engrenagens que movem o processo político no Brasil se voltam para dentro e não para fora. Quem toma decisões no Estado costuma priorizar primeiro a si, depois sua família, depois seu partido e seus aliados e só então, se houver espaço, o país.
Não é fácil ler essa análise sem fazer uma profunda reflexão sobre o país e sem observar com preocupação a conexão dessa perversão com os temas que estão na pauta atual.
Famílias políticas tentando sobreviver, partidos políticos tentando se manter no poder, briga por dinheiro, por emendas, por influências regionais. E ninguém pensando no Brasil de forma honesta. Pare um pouco para pensar em todas as pautas atuais na política brasileira.
Você vai descobrir que todas estão ligadas à manutenção ou tomada de poder de algum grupo político e o país é usado como justificativa apenas. “Isso é bom para o Brasil e, se me beneficia, é por coincidência”, dizem com voz impostada.
A exceção do Plano Real
Não é de hoje. Foi por causa dessa estrutura viciada que o Plano Real precisou nascer escondido, por exemplo. A equipe montada por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) trabalhou dentro de um bunker para impedir que pressões políticas deturpassem o projeto.
A escolha pelo isolamento não revela apenas prudência técnica, mas também evidencia o grau de corrosão das instituições e o tamanho da interferência de interesses privados na formulação de políticas públicas.
E o Plano Real foi a última vez em que se conseguiu fazer algo pensando no melhor para o país, independente de quem tivesse prejuízo político.
A reforma tributária deformada
O caso mais recente, da reforma tributária, reforça essa lógica. Um tema discutido há décadas e sempre apontado como urgente acabou mais uma vez capturado por grupos de pressão. Governadores, deputados, prefeitos e partidos disputaram fatias e exceções enquanto a economia brasileira continuou travada.
A reforma que prometia simplificação corre o risco de aumentar a carga tributária e de aprofundar a dependência do país em relação ao Estado. Se tivesse sido feita em um bunker, longe da pressão política e perto de técnicos que pensem o melhor para o país sem interferências, talvez desse certo.
Mas aí diriam que “não é democrático”. Sim, porque a democracia também é refém de grupos políticos que a usam para manter ou conquistar poder.
O atraso brasileiro
Nesse cenário, o Brasil cresce, mas cresce devagar demais. Enquanto avança 2% ou 3%, China, Vietnã e Indonésia disparam com taxas muito superiores.
O diagnóstico de Graziano é duro. O país está preso a uma bola de ferro no tornozelo. A imagem usada sintetiza a dificuldade brasileira de acompanhar a velocidade do mundo. Não faltam potencial e recursos.
Falta capacidade institucional para romper com os vícios que emperram o avanço.
O colapso dos partidos
A trajetória do PSDB, que também está no livro de Graziano, funciona como metáfora dessa paralisia. Um partido que já comandou o país e disputou o protagonismo nacional com o PT por décadas, hoje encolhe em meio a brigas internas e disputas pessoais caminhando para um nanismo representativo inacreditável.
É um retrato fiel do que se repete em diferentes legendas. Projetos coletivos se desfazem diante de ambições individuais e de cálculos imediatistas. O PSDB foi vítima direta da briga interna por poder entre Geraldo Alckmin, Aécio Neves e José Serra. Deu no que deu.
Reflexão necessária
A tese exposta na entrevista e aprofundada no livro O Caipira e o Príncipe é incômoda, porém necessária. A política brasileira se afastou do sentido público da democracia e se enroscou nas prioridades privadas de quem detém o poder. É preciso encarar esse desvio.
E o livro, que será lançado no Recife nesta quinta-feira (11), às 17h, na Livraria Jaqueira do Paço Alfândega, é um bom começo para essa refexão.

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