Todd Phillips não é o melhor quando se trata de produzir sequências. Basta ver a calamidade que ele fez com a ótima comédia “Se Beber Não Case“.
A crítica, aliás, não gostou de seu novo filme, a sequência de “Coringa”, batizada “Delírio a Dois”, que teve nota média de 51 no Metacritic e 56 no Rotten Tomatoes —a máxima é 100. São os dois mais importantes agregadores de críticas no mundo.
No último Festival de Veneza, no mês passado, onde houve a estreia mundial de “Coringa”, que chega nesta quinta-feira às salas do país, ele disse ser viciado em risco. “É o que me mantém acordado à noite”, contou o cineasta a um grupo de jornalistas. “É o que faz meu cabelo cair. Mas também é o suor que me mantém em movimento.”
Também diretor do longa original, “Coringa”, de 2019 —que levou dois troféus no Oscar, inclusive o de melhor ator para Joaquin Phoenix, e arrecadou mais de US$ 1 bilhão em bilheteria com sua abordagem adulta para um personagem dos quadrinhos—, Phillips talvez devesse ter dedicado mais umas noites de insônia e muitos fios de cabelo para pensar melhor neste roteiro, fraco e sem razão de existir.
Cinco anos se passaram desde que Arthur Fleck —nome verdadeiro do personagem principal— foi preso por todos aqueles assassinatos que cometeu no primeiro filme e, enquanto espera sua sentença na ala psiquiátrica do presídio, parece cair cada vez mais fundo em um poço de amargura e tristeza.
No começo, fazia piadas para os guardas, mas foi entristecendo conforme “o julgamento do século” se aproximava. De tão consumido pela desgraça de sua vida, parece estar ainda mais decrépito do que no original, com escápulas tão pontudas e saltadas que parecem que vão cortar o fiapo de pele que as cobre
As coisas mudam quando ele entra no grupo de terapia musical, o coral da cadeia. É lá que ele conhece Harleen “Lee” Quinzel, a personagem interpretada por Lady Gaga, uma tiete do Coringa que jura ter visto o filme feito sobre ele umas cem vezes. E ele se apaixona à primeira vista.
O amor era tudo que Arthur queria, e no número musical mais incrível do filme, a câmera segue Joaquin Phoenix pela sala de televisão do presídio enquanto ele canta “For Once in My Life”, de Stevie Wonder.Só que um musical com Lady Gaga em que ela não faz parte da melhor sequência tem algum problema sério.
Além disso, tudo o que vemos neste momento não passa de fantasia. Toda a trama real se passa em paralelo na vida real e no sonho, ou na torcida, de Arthur Fleck. Sua namorada é fake, nenhuma das danças é de verdade dançada, nenhuma das músicas é de verdade cantada na realidade daquelas figuras
Mas nem isso tem um propósito claro. “Coringa: Delírio a Dois” não é como “Dançando no Escuro”, o melancólico e trágico musical de Lars von Trier com a cantora Björk, lançado em 2000, em que tudo é, de fato, sonhado pela protagonista, mas também se entrelaça com a decadência de sua saúde.
Na Itália, antes da sessão oficial, Phoenix —que recuperou todo o peso que perdeu para viver seu personagem cadavérico pela segunda vez e parecia saudável e surpreendentemente loiro— chegou cedo ao tapete vermelho. Simpático, alegre e generoso, interagiu com os fãs que esperavam havia horas do outro lado da grade que separa as estrelas das pessoas normais e dos inúmeros paparazzi. Posou para selfies, assinou autógrafos, respondeu perguntas.
Em seguida chegou o diretor, que fez graça com a onda de calor e pediu emprestado um leque de uma convidada para se abanar. Ninguém estava lá para ver os dois, eles sabiam e pareciam em paz com isso. Era Lady Gaga a estrela daquele fim de tarde, que ainda tinha o sol alto e nem sinal de lua, noite, brisa, nada disso.
Ela chegou perto do início da sessão, e, apesar de estar hospedada a menos de 300 metros da entrada do cinema, em um carro de um patrocinador.
Quando o chapéu preto rendado criado por Philip Treacy mostrou suas pontas, a multidão aumentou o volume dos gritos de seu nome, enquanto os paparazzi criavam uma das maiores confusões do festival deste ano, um tropeçando por cima do outro para conseguir a melhor imagem da cantora cada vez mais atriz.
Ela precisou de ajuda para se movimentar com o vestido preto longo, decotado e com saia rodada Dior, enfeitado com joias Tiffany. Enquanto um assistente segurava sua mão, ela assinava com a outra uma longa fila de autógrafos. Os fãs alucinados que não conseguiam chegar perto da diva pop suplicavam “Gaga, por favor, Gaga, aqui”, na esperança de conseguir um selfie com a estrela.
No final da sessão, o público, em êxtase, aplaudiu de pé por 12 minutos e meio. É uma eternidade em termos de aplausos, ainda mais de pé. Os braços cansam, o som irrita, as palmas da mão parecem queimar.
Mas nem tudo é o que parece. Os convidados das premières em festivais de cinema muitas vezes viajam de seus países originais para estar lá. E vão para prestigiar a estreia mundial —e torcer pelo sucesso– de um longa-metragem que promete lucros estratosféricos para todos os envolvidos.
Sabe todos aqueles nomes que aparecem no fim de um filme de grande produção de Hollywood? Então, são eles que, em grande parte, ocupam os assentos nessas exibições. Não tem ingresso à venda para sessão de gala em festival de cinema. Ou você é convidado, ou não entra.
Por fim, ponha uma artista do tamanho de Lady Gaga na plateia, no balcão superior —portanto atrás de quase todo mundo, já que a maior parte do público se senta no piso térreo, como em qualquer cinema. O tempo passa bem menos arrastado, não é mesmo? Ainda assim é impressionante.
Foi demais até para Phoenix, que foi embora depois do nono minuto de aplauso. E olha que ele estava batendo o maior papo com Lady Gaga o tempo todo, então não é que ele estava agradecendo emocionado nem nada.
Mais cedo, naquele mesmo dia, o trio havia participado da entrevista coletiva do festival, que tradicionalmente acontece logo depois da primeira exibição para a imprensa, pela manhã. As perguntas na coletiva eram mais dirigidas a Phoenix e a Phillips que a Gaga, a dupla que estava pela segunda vez apresentando um longa de arte com o personagem da DC Comics.
Phoenix afirmou que só confirmou sua participação no projeto quando leu um roteiro que fez sentido para ele. A ideia de ter Gaga no elenco foi a cereja do bolo.
Já ela afirmou que precisou aprender a “cantar menos bem” para interpretar sua personagem no filme, impossível de definir sem dar um pequeno spoiler, mas que, afinal de contas, atende pelo nome de Lee Quinzel, quase um anagrama do que será seu codinome de vilã, Harley Quinn. “O público é que vai definir se este é ou não um musical”, afirmou a cantora, no Festival de Veneza.
De fato, há vários números musicais em que ela ou os dois dançam e cantam, em geral músicas conhecidas e mais antigas, românticas. Há até um número feito sob medida para ser uma continuação daquela incrível sequência de dança na escadaria, que marcou o primeiro longa. Tudo é lindo e bem produzido, sem dúvida. Mas falta mágica.

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