Inspirado no inverno europeu, o Janeiro Seco esbarra no verão brasileiro; adaptar a proposta ao nosso calendário pode ser o caminho para maior adesão
Audes Feitosa
Publicado em 18/01/2026 às 15:33
| Atualizado em 18/01/2026 às 15:35
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Todos os anos, países do Hemisfério Norte fazem um movimento conhecido como Dry January, ou Janeiro Seco. Trata-se de uma proposta simples e inteligente de saúde pública: passar os primeiros 31 dias do ano sem álcool como forma de reorganizar hábitos, reduzir excessos das festas e retomar um certo domínio sobre escolhas que, na rotina, tornam-se automáticas.
A lógica funciona de maneira exemplar naquele contexto. Em países como Reino Unido, Canadá e França, o início do ano coincide com temperaturas baixas, calendários mais introspectivos e um período social pós-festas marcado por maior recolhimento.
É inverno, época de menor convívio social, menos eventos, menos convites externos e maior aderência a rotinas de cuidado. Trata-se de um ambiente favorável para uma pausa e, principalmente, para a reflexão.
Além dos argumentos comportamentais, há ainda o peso científico. Estudos sobre o Dry January mostram melhora do sono, redução de transaminases, menor pressão arterial, melhor disposição e, talvez o mais relevante, uma redução sustentada do consumo de álcool ao longo dos meses seguintes. A pausa de 30 dias reorganiza padrões.
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No Brasil, porém, a transposição literal dessa campanha enfrenta um desafio cultural evidente. Janeiro é calor, férias, praia, churrasco, viagens, confraternizações e encontros ao ar livre. É a fase final das festas de fim de ano e, sobretudo, a prévia do maior ritual social brasileiro: o Carnaval.
Em termos de saúde comportamental, estamos no extremo oposto do recolhimento. Somos um país em pleno verão, com o calendário social aberto e pulsante. Pedir abstinência em janeiro é pedir contenção quando a sociedade está pedindo expansão.

Audes Feitosa é médico cardiologista, professor da pós-graduação em Ciências da Saúde da UPE – SILVANO PRYSTHON/JC IMAGEM
Existe uma frase que sintetiza bem nosso calendário: no Brasil, o ano só começa depois do Carnaval. E essa frase não é folclore, é sociologia. Janeiro é um mês de manutenção do convívio, não de contenção.
É por isso que, para nós, faz mais sentido adaptar a ideia em vez de simplesmente replicá-la.
Há um período culturalmente perfeito para isso: a Quaresma. Logo após o Carnaval, o país naturalmente desacelera. É retomada do trabalho, reestruturação das rotinas e preparação para a Páscoa. A própria tradição cristã da Quaresma, com seus 40 dias de abstinência e reflexão, já incorpora um vocabulário de autocontrole que antecede em séculos qualquer campanha de saúde pública. A cultura, nesse caso, joga a favor.
Propor uma Quaresma Seca não moraliza o tema, mas o contextualiza. O objetivo não é proibição, é consciência. O mesmo princípio do Dry January, com a diferença importante da aderência cultural.
Campanhas de saúde pública funcionam quando dialogam com o calendário social real. Para o inverno europeu, janeiro é um convite ao cuidado. Para o verão brasileiro, o cuidado começa depois do Carnaval.
Talvez este seja o maior aprendizado: boas ideias circulam, mas precisam de tradução cultural.
O álcool faz parte da sociabilidade brasileira, mas o excesso também faz parte de seus custos em saúde, incluindo doença hepática gordurosa, hipertensão arterial, alguns tipos de câncer, arritmias, transtornos do sono e, não menos importante, a perda silenciosa da autonomia sobre as escolhas.
Se o objetivo é ressignificar a relação com o álcool, vale aprender com o Hemisfério Norte, mas pensar com a cabeça dos trópicos. A abstinência temporária funciona, desde que colocada no calendário certo.
No Brasil, talvez o verdadeiro Janeiro Seco precise começar na Quarta-feira de Cinzas.
*Audes Feitosa é médico cardiologista, professor da pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Pernambuco (UPE)


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