Niki de Saint Phalle, artista que atirava em telas, ganha mostra em Belo Horizonte

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Niki de Saint Phalle, artista que atirava em telas, ganha mostra em Belo Horizonte


Cascatas de cores escorrem sobre o relevo branco, emergindo da tela. Ao explodirem na superfície, vermelhos, laranjas e azuis radiosos revelam a pintura singular de Niki de Saint Phalle (1930–2002), que montava painéis com objetos e bolsas cheias de tinta, cobria-os com gesso e, num gesto performático, os atingia com tiros de rifle.

“Disparo à Distância” e “A Catedral Vermelha”, dos anos 1960, desafiam a pintura de cavalete e, ao mesmo tempo, afirmam o poder das mulheres, a insurgência contra formas de autoridade e a tentativa da artista de elaborar traumas de um abuso sexual causado pelo pai.

“Meus sentimentos de agressividade encontraram uma forma de sublimação”, dizia Niki sobre os trabalhos performáticos que a tornaram conhecida no circuito da arte.

As obras integram a exposição “Sonhos de Liberdade“, com 67 criações da artista franco-americana na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, dentro da Temporada França-Brasil 2025.

Para a mostra, os curadores Hélène Guenin e Olivier Bergesi selecionaram peças do acervo do Museu de Arte Moderna e Arte Contemporânea de Nice, o Mamac, dono de uma das três maiores coleções de Niki no mundo. Completa o conjunto uma escultura da Pinacoteca de São Paulo, a multicolorida “Fonte das Quatro Nanás“, feita em 1998.

O recorte apresenta produções que abrangem, de certa forma, toda a trajetória da artista, desde os trabalhos mais remotos, como “Escorpião e Cervo”, dos anos 1950. Na tela, numa paisagem convulsionada por gotejamentos à la Jackson Pollock, os animais aparecem num combate improvável.

A figura de uma menininha loira de braços erguidos para o céu e uma igreja surgem entre montanhas incrustadas de pedacinhos de metal e cacos de cerâmica, elementos significativos de seu despontar artístico.

De família privilegiada, Catherine Marie-Agnès Fal de Saint Phalle nasceu em Neuilly-sur-Seine, subúrbio aristocrático de Paris, mas mudou-se ainda pequena para os Estados Unidos, onde estudou em colégios de educação religiosa e progressista, tendo sido transferida de um e expulsa do outro.

Em 1953, já casada e de volta à França, Niki enfrentou um quadro depressivo que a manteve semanas internada em Nice. Ali encontrou na arte uma ajuda terapêutica.

“No fim das contas, minha depressão nervosa acabou sendo algo bom, porque a estadia na clínica fez de mim uma pintora”, escreveu no livro em que recorda os anos vividos em família, com o primeiro marido, o escritor Harry Mathews, e os dois filhos.

Nas primeiras assemblages, ainda no hospital, ela usava materiais que encontrava no jardim, como pedras e gravetos. Na mostra, algumas de suas colagens posteriores, com brinquedos, botões, navalhas e armas, como em “Roda da Fortuna (Circular com Duas Pistolas)” e “O Batom”, dos anos 1960, reforçam esse começo autodidata.

Mais tarde, já separada do marido e dividindo um ateliê com o escultor suíço Jean Tinguely, que viria a ser seu companheiro, a artista viveu uma de suas fases mais criativas. Época das pinturas-tiro e das Nanas, figuras femininas felizes e exuberantes, inspiradas nas formas rechonchudas de sua amiga Clarice Rivers durante a gravidez.

“Clarice é uma árvore”, “Clarice é uma deusa”, “Você fica tão linda de maiô”, Niki escreve na serigrafia “Doce e Sexy Clarice“, de 1968, com sua tipografia bordada.

Em “Nana Bola Sem Cabeça”, de 1965, o espectador encontra numa figura recoberta de lã colorida a celebração da feminilidade livre de padrões, como se uma Vênus de Willendorf ampliada tivesse saltado do paleolítico direto para a arte contemporânea.

Com a mesma energia vibrante, outras garotas, como diz o termo nana em francês, tomam o espaço expositivo e parecem flutuar.

É o caso de “Erica”, de 1965, com o corpo arqueado para trás, e de “Nana Negra de Cabeça Para Baixo”, de 1966, que traz à mente uma dançarina de breaking.

Embora seus trabalhos sejam muito associados ao feminismo, o curador Olivier Bergesi não a fecha em rótulos. “Niki foi mais do que feminista, digamos assim. Sua obra abraçava várias lutas, como a antirracista e a ecológica. Vários movimentos, portanto, poderiam se reconhecer nela”, diz.

É inclusive das páginas de “Aids, You Can’t Catch It Holding Hands“, você não pega dando as mãos, livro que a artista escreveu com um imunologista para combater o estigma em torno do HIV/Aids nos anos 1980, que surgiu a “Trilogia dos Obeliscos”, de 1987.

As três coloridas formas fálicas, decoradas com flores, animais e caveiras, evocam arcaicas celebrações de vida e fertilidade.

Do seu projeto mais ambicioso, o Jardim dos Tarôs —um parque de esculturas monumentais dos arcanos maiores, em uma área do tamanho de 20 campos de futebol na Toscana—, a mostra apresenta litografias dos anos 1990 de cartas como a Temperança, a Justiça, o Sol e o Enforcado.

“Os tarôs me lembram os contos de fadas que eu tanto amava na infância”, dizia Niki sobre o oráculo. “Cada carta representa uma provação, um tesouro e uma pergunta. A longa jornada pelas 22 dos arcanos maiores é o trabalho de uma vida”.





Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *