É preciso um certo nível de tolice para uma instituição definhar em nome de um indivíduo. Isso só acontece, se um depender do outro pra sobreviver.
Publicado em 27/02/2025 às 20:00
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A figura política de Lula (PT) sobreviveu aos quase 600 dias de prisão, para poder ser reabilitada no contexto eleitoral seguinte, por causa do PT. É possível culpar o Partido dos Trabalhadores pela carne e pelo osso da História nos últimos anos, mas é necessário reconhecer que a sigla se fundiu a Lula de uma forma que, mesmo encarcerado, o líder continuou livre na rua ao lado, acampado.
A confusão entre Lula e o próprio partido é tamanha que ao pensar nas pessoas que ficaram acampadas em Curitiba, ao lado da carceragem da Polícia Federal, é possível dizer que eram os lulas de fora que davam “bom dia, boa tarde e boa noite” ao Lula de dentro. Não existe outra relação simbiótica como essa na política brasileira.
Nem Bolsonaro consegue chegar perto com o PL.
Natureza
Com isso ninguém está aqui dizendo que a relação PT/Lula é algo positivo. Esse personalismo desesperado entre o ser e a coisa, entre homem e instituição, integra a base primitiva do patrimonialismo que promove corrupção.
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Por pensar que se é a coisa, toma-se a coisa para ser. E isso se amplia para a gestão pública depois. É antirrepublicano. Mas isso é outro assunto.
Bom ou mau, o fato é que o PT serviu para manter Lula “livre” enquanto ele estava preso. Com Bolsonaro isso não vai acontecer. Não é por covardia nem maldade, é pelo curso da natureza do PL e do próprio ex-presidente.
Relação
Enquanto Lula passou a vida inteira no mesmo partido, cultivando uma relação orgânica rara para os padrões brasileiros, Bolsonaro está em sua décima legenda. Nunca criou grande vínculo com nenhuma sigla.
Enquanto o PT completou 45 anos recentemente, o PL está para chegar aos 20 anos ainda e nesse período já foi base de Lula, Dilma (PT) e Temer (MDB), antes de se tornar o décimo partido de Bolsonaro.
Solidez e organicidade é algo que Valdemar Costa Neto até tentou buscar nos últimos anos, mas os prejuízos tendem a ser maiores que os lucros daqui pra frente.
Boa noite
É preciso um certo nível de tolice para uma instituição definhar em nome de um indivíduo. Isso só acontece, e só faz sentido, se a própria sobrevivência da instituição estiver conectada à sobrevivência do sujeito. É o caso de Lula e do PT. Um sem o outro, é falência total.
Mas o PL não depende de Bolsonaro para sobreviver. Por isso, dificilmente haverá acampamento na parte externa do local em que Bolsonaro ficará preso, se vier a ser condenado. Não haverá, muito menos, “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite, presidente”.
Novos ares
Novas lideranças da direita estão surgindo e poderão ocupar o espaço eleitoral. Hoje, o bolsonarismo ainda consegue interditar o crescimento de novos nomes no cenário. Se o líder estiver preso, não haverá como segurar a ascensão de tarcísios ou nikolas.
Dos filhos, o único pragmático e que costuma agir com inteligência é Flávio Bolsonaro. Ele deve sobreviver politicamente. Os outros tendem a submergir no médio e no longo prazo, pela insistência cada vez mais solitária que irão exercer na ideia de manter a liderança do pai.
Voto
Tudo isso pode parecer apenas algo possível ou até um grande absurdo para alguns, vendo o cenário de hoje. Mas em Pernambuco um movimento interessante já ocorreu.
Trata-se de um vídeo gravado por Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, afirmando que a liderança do processo eleitoral de 2026 em Pernambuco será do atual presidente estadual da sigla, Anderson Ferreira (PL).
Em certo ponto ele anuncia que o critério para essa decisão é “quem tem voto e pode fazer o partido crescer”, a referência pode ser a um comentário que se faz nos bastidores, sobre Anderson ter os “votos” e Gilson Machado (PL) fazer “barulho”.
Mas é, principalmente, um apontamento de Valdemar na direção do pragmatismo e da política tradicional. Segue à direita, segue conservador, até segue apoiando Bolsonaro, mas tem que ser objetivo, com menos personalismo histriônico e mais resultados práticos.
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