Não mexa na minha dopamina barata

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Não mexa na minha dopamina barata


Em terra de deprimido, quem tem dopamina de sobra é rei. No Dow Jones dos neurotransmissores, as dopaminas, serotoninas e outras “inas” estão supervalorizadas, tornando o câmbio desfavorável para preguiçosos —como eu.

Esse neurotransmissor tão cobiçado, antes monopólio dos psiquiatras, cientistas e psicólogos, adentrou a seara dos influenciadores (para infortúnio nosso). Com frequência mais insistente que propaganda de bet, o algoritmo do Instagram tem me entregado conteúdos que falam de “dopamina barata”. Quase sempre produzidos por coaches, “life coaches”, “health coaches”, “happiness coaches” e, às vezes, especialistas sérios.

O conceito se refere ao prazer imediato, gratificação instantânea que buscamos em atividades de pouco esforço e que, a longo prazo, podem se tornar viciantes e prejudiciais à saúde mental. Na igreja das Testemunhas da Dopamina Cara, prazer se conquista com esforço, dedicação e, claro, merecimento. O messias? Algum atleta de 30 anos, idealmente, corredor, que acorda às 5 da manhã, come muita proteína magra e está há 23 anos sem beber refrigerante. Seu demônio? Uma combinação de delivery, videogame e rede social.

Em seus cultos, se escuta: “dopamina barata te dá prazer, mas não te deixa feliz de verdade.” Calma aí! Um delivery gorduroso já me salvou de muitos domingos desesperançosos. Carboidrato e açúcar podem ser melhores do que muita gente. Claro que não dá para virar regra. Mas, por isso, existe a exceção. (Tudo bem que quase todo domingo é deprimente, sem exceção).


Os missionários da Dopamina Cara também pregam a importância do tédio. Com isso, concordo. Em partes. É importante a gente lidar com a própria companhia, suportar silêncios e espaços vazios. Mas não depois das 21h45 da noite, depois do banho, depois de ter cumprido (quase) todas as obrigações do dia, com a cabeça exausta. Nessa hora, só me resta neurônio para consumir oito memes, assistir dez vídeos imbecis do TikTok e descobrir quem eu preciso odiar no Twitter (que virou X).

Tédio é importante. Mas se alienar um pouco, de vez em quando, também é.

“Dopamina barata te dá prazer imediato, mas não te deixa feliz de verdade”, disse o discípulo. Quer dizer então que a dopamina cara não te dá prazer imediato e ainda assim pode não te deixar feliz? Sinceramente, mais vale um neurotransmissor na mão, do que dois voando.

Tem dias em que tudo o que a gente precisa é de uma dopamina vagabunda para suportar o real, que pode ser muito cruel. Ou pode ser só chato mesmo.

Dito isso, me vê dez quilos de dopamina barata, por favor.



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