Na Flip, Rosa Montero debate ponto de encontro do jornalismo com a literatura

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Na Flip, Rosa Montero debate ponto de encontro do jornalismo com a literatura


No dia 1º de fevereiro de 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini encerrou seu exílio de 13 anos retornou à pátria para dar início à Revolução Iraniana.

A espanhola Rosa Montero o encontrou duas semanas antes, num chalé a 200 quilômetros de Paris. Na época, diz, toda a esquerda mundial “caía no erro terrível de acreditar que, se você é contra algo ruim, você automaticamente é bom —o que é mentira, você pode ser até pior do que esse ruim”.

Para ela, era o caso de Khomeini, uma das mais de 2.000 entrevistas que fez ao longo de uma prolífica carreira como jornalista —do ex-Beatles Paul McCartney à ex-primeira-ministra britânica Margaret Tatcher.

Na mesa que protagonizou domingo (3) na Casa Folha, sua última nesta Flip, Montero colocou sua ocupação como jornalista à frente daquela que lhe dá mais reconhecimento global, a de escritora. A mediação do jornalista Uirá Machado puxou para esse lado, uma escolha acertada, que revelou episódios menos conhecidos da autora de “A Louca da Casa” e “O Perigo de Estar Lúcida”, ambos editados no Brasil pela Todavia.

O relato da conversa com Khomeini, por exemplo, bambeou entre a tensão e o riso. Ela contou que ficou nervosa ao ver todas as mulheres com véu na cabeça, ela inclusa. “Ele era radical. Não bastava o véu normal, era até as sobrancelhas, que não podiam aparecer.”

O alívio cômico logo veio. “Depois me disseram que eu tinha que manter a cabeça mais baixa que a dele, o que era francamente difícil, porque ele era um ancião muito baixinho e estava sentado no chão.” Fez a entrevista “praticamente deitada sobre os tapetes, o que foi um absurdo. Foi uma entrevista disparatada”.

Aos 73 anos, com 40 livros publicados, Montero ainda se define pelo que já foi: “Repórter, entrevistadora, jornalista de rua, jornalista para tudo.”

A tatuagem no antebraço com a famosa fórmula de Einstein “e=mc2” é sintomática de sua sede por saber mais, e com curiosidade genuína por quem entrevista.

Ela hoje colabora com uma coluna semanal no jornal El País, do qual foi repórter, chefe e referência durante décadas. A experiência não a impediu de questionar os rumos atuais da profissão, mas tampouco a desencorajou de recomendá-la.

“Embora o jornalismo esteja numa crise atroz, continuo dizendo aos jovens que se tornem jornalistas, porque é uma das profissões mais bonitas do mundo.”

Para Montero, jornalismo é gênero literário como qualquer outro. Um mau jornalismo que flerta demais com a ficção fracassa tanto quanto o mau romance que se ancora excessivamente no real, afirmou.

Para transgredir normas de cada gênero, é preciso dominá-las bem, aconselhou.

É a primeira a admitir que nem tudo que escreve, quando na pele escritora, é verdade. Inclusive a suposta irmã a quem dedica “A Louca da Casa”. Muitas pessoas acham que tenho uma irmã, porque eu dedico esse livro a ela”, disse, e o público gargalhou. Essa parente não existe.

A confusão entre o que é e o que se quer que seja também rege sua visão sobre a verdade: no jornalismo, vê-se o mundo como uma árvore entre árvores. Na literatura, é preciso alçar voo como uma águia. “A verdade do romance é muito maior. Ela te permite enxergar a humanidade como um todo.”

Ela compareceu ao papo mesmo com dores no ombro, resultado de quase cinco horas de autógrafos que deu na véspera. O mediador reparou que sua alegria nunca parecer esmorecer.

Montero reconheceu que sua maior virtude talvez fosse essa. “A alegria não tem absolutamente nada a ver com a felicidade. É uma virtude animal que faz com que todas as suas células se regozijem por estarem vivas.”



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