Pesquisa no Cabo de Santo Agostinho traz perfil de mulheres vítimas de violência doméstica – e o número de ocorrências registradas vem aumentando
JC
Publicado em 06/12/2025 às 0:00
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O aumento de notícias e registros de casos de violência doméstica e feminicídio vem sendo notado no Brasil, nos últimos anos. Em diferentes cidades, como a maior do país, São Paulo, ou o Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife. Apesar das campanhas de conscientização, apelo às denúncias e políticas públicas contra o machismo, a primeira impressão é de insucesso das medidas de contenção da violência contra as mulheres. Mas especialistas em segurança reconhecem na curva ascendente, além da continuidade dos crimes, a maior disposição de exposição dos casos pelas vítimas, seus familiares e até vizinhos que têm conhecimento da brutalidade que se consuma diariamente, até vir a ser morte violenta.
Estudar e buscar a transformação dos fatores que levam aos abusos, assédios, ataques e todo tipo de discriminação, diminuição e anulação às mulheres, são desafios da sociedade contemporânea, e não apenas no Brasil. A partir de informações da Vara de Violência Doméstica do Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife, foram analisados mais de 3 mil casos anotados de janeiro de 2016 a dezembro de 2024 na cidade. Ao longo desses 9 anos, o número de casos registrados anualmente praticamente dobrou, passando de 275 a 523. Vale sempre ressaltar, dada a natureza íntima da maioria das agressões, que a hipótese mais usual entre as autoridades de segurança e de proteção feminina é que as denúncias ainda representam a ponta de um iceberg, em realidade mais ampla do que a detectada pelos registros oficiais.
Nos dois últimos anos abrangidos pela pesquisa, de 941 casos levantados, 480 vítimas disseram não ter fonte de renda por trabalho. E nenhuma das demais relatou receber acima de três salários-mínimos. A dependência financeira aparece, na prática, como fator de constrangimento para a denúncia contra agressores que deixam de ser companheiros de vida para se tornarem algozes dentro de casa. “Também é muito comum as vítimas ficarem preocupadas se o acusado será preso. Elas sentem que será culpa delas”, aponta o professor Mozart Amorim, coordenador da pesquisa pelo Centro Universitário UniFBV Wyden.
São dois vínculos que precisam ser desfeitos, para que a mulher vitimada se sinta segura para ir em frente sem medo. A dependência econômica, muitas vezes, inibe por causa da incerteza sobre o futuro de filhos, além dela mesma. E a dependência emocional, alimentada pela cultura machista que minimiza o comportamento violento, provoca o deslocamento da culpa do agressor para a mulher agredida, que pode ser vítima fatal de uma relação tóxica. Um dado sintomático da condição de dependência e insegurança a que estão submetidas: nada menos que três quartos das entrevistadas admitiram já terem sido vítimas de agressões e abusos anteriormente. A maioria, certamente, diversas vezes, durante anos.
A cultura machista que desagua na agressividade contra as mulheres inclui, segundo os depoimentos, o comportamento possessivo dos homens em relação às companheiras, que não admite o fim dos relacionamentos, e o uso excessivo de bebida alcóolica como prévia dos ataques. O cenário não difere do que a imprensa nacional destaca, quase semanalmente, com o acréscimo de feminicídios menos comuns, cometidos por homens estranhos às vítimas. A vulnerabilidade feminina é notória, e precisa da atenção devida.

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