Mônica Bergamo: Sexo e nu masculino ainda são tabus, afirmam Maria Manoella e Mauro Restiffe

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Mônica Bergamo: Sexo e nu masculino ainda são tabus, afirmam Maria Manoella e Mauro Restiffe


“Foi uma coisa muito imediata, de se encontrar e sentir uma coisa muito forte”, conta a atriz Maria Manoella sobre o momento em que conheceu o fotógrafo Mauro Restiffe numa festa, há pouco menos de dois anos. Desde então, estão juntos, num relacionamento agora à vista na mostra e no livro “Onda Avalanche Vulcão”, em que o casal exibe cenas íntimas —sexuais e de contemplação— entremeadas por fotos de natureza.

“Essas coisas são meio incontroláveis, como são os grandes fenômenos naturais”, afirma ela no espaço da galeria Fortes D’Aloia & Gabriel, na zona oeste de São Paulo. Nas paredes, as fotografias mostram ambos os artistas, quase sempre nus, transando, encarando um ao outro ou posando juntos em frente a espelhos.

Diferentemente de outras tantas obras fotográficas em que o homem controla a câmera e mostra a mulher, desta vez a produção foi compartilhada, embora Manoella, atriz de peças como “Escute as Feras” e “As Três Irmãs”, confesse que até então nunca tinha mexido numa câmera, “ainda mais analógica, mais complexa”. “Ela se apropriou do processo, ao deixar ser fotografada e ao pegar a câmera das minhas mãos para fazer as próprias fotos”, diz Restiffe, que anda para cima e para baixo com uma Leica M6 numa bolsa a tiracolo.

Manoella diz interpretar a atitude do parceiro como um ato de entrega. “Quando ele dá a câmera para mim, ele já não controla mais a situação, porque agora é o meu olhar. E ele está vulnerável, exposto, em um lugar desconfortável. Eu estou acostumada a ser vista pela câmera, mas ele não. Há uma inversão interessante.”

As imagens, cheias de desfoque e com os grãos da película bem à mostra, transbordam libido, escancarada em cenas de corpos enroscados, poses eróticas e membros em riste. Há, também, momentos em que um apenas observa o outro, como em flagrantes de admiração. “Há um tabu tanto para falar de sexo como de nu masculino. É uma sociedade machista, em que o corpo da mulher é muito mais sexualizado”, diz ele. “E a gente equilibrou, aqui os dois se expõem. Não tem exploração do corpo feminino, tem a ode a uma relação.”

“Às vezes você vê pessoas posando para fotógrafos, tentando achar o ângulo perfeito e não pode se mexer, não pode sei lá o quê. Já o Mauro é assim: ‘pá, pá, pá’. Ele vai tirando”, descreve Manoella. A atriz conta que, certo dia, o parceiro ligou para dizer que começou a enxergar naquelas fotos, feitas de maneira espontânea, uma série de arte. “Admito que fiquei ansiosa quando começamos a pensar nisso como um trabalho.”

A questão era a exposição da intimidade. “Mas nós não temos controle se as pessoas vão postar, repostar. O controle que tem é esse aqui, do que estamos mostrando, nesse ambiente”, diz a atriz. “E quando a gente pôs o trabalho no mundo, estamos conscientes de que a gente está oferecendo algo, né? Como artistas.”

“Essa obra tem um teor muito delicado e que não foi premeditado. Antes de mais nada, estamos falando de um grande encontro, de um amor. Amor é uma coisa revolucionária, simples na medida em que todo mundo conhece”, diz Manoella. Ela afirma sentir na cena artística atual a necessidade de obras engajadas, “em que pegam uma pauta para defender, às vezes só porque agora tem que ser assim ou para caber num edital”. “E isso acaba limitando o artista. Esse nosso trabalho fala de um tema universal. E então debates vão surgir.”

Apesar da simbiose exposta nas fotos, o casal conta ter feito questão de viver em apartamentos separados, embora no mesmo prédio, ela no térreo, e ele, no terceiro andar. “Viemos de casamentos que se desfizeram não faz tanto tempo, e cada um tem seu núcleo familiar, sua rotina, seus filhos e seus cachorros”, conta ela. “Para quem acabou de sair de uma relação longa, era um cuidado que a gente quis ter.” Antes, Manoella, 47, foi casada por seis anos com o músico Lúcio Maia, com quem tem um filho. Já Restiffe, 55, tem quatro, três dos quais de seu relacionamento anterior, que durou duas décadas. Há dez anos ele também se tornou avô.

Em 2017, o fotógrafo expôs na Pinacoteca uma retrospectiva de sua carreira, que compreendia imagens de foro familiar e, entre outras obras, registros da posse do primeiro mandato de Lula. Dezesseis anos depois, a série ganhou uma espécie de contraponto com a cobertura, a convite da Folha, da cerimônia de posse de Bolsonaro. A oposição entre os eventos, um em preto e branco, e o outro em cores, foi exposta na Bienal de 2021. Ainda assim, Restiffe afirma que “Onda Avalanche Vulcão” é o seu trabalho mais político. “Ele mostra como a gente se relaciona com a vida, e, quando você coloca isso para o público, ele vira um ato político.”

Dentro da perspectiva de sua carreira, Manoella vê nas fotos com o parceiro um elo com a peça “Escute as Feras”, que a atriz voltará a encenar em breve. O monólogo, com direção de Mika Lins e Fernanda Diamant, é uma adaptação do livro da antropóloga francesa Nastassja Martin e narra o encontro com um urso. Nas imagens que expõe agora, a atriz enxerga “a natureza em estado bruto”, o que de certa forma está impresso no sexo e, de maneira mais literal, nas paisagens que ambos registraram em Foz do Iguaçu e na Islândia.

A entrevista ocorreu na semana da abertura da Bienal deste ano, e a galeria recebia diretores de museus de fora do país. Entre outros comentários, eles ressaltavam a coragem do casal de se expor dessa maneira. Ao escutar a palavra, Manoella não consegue conter a expressão de desconforto. “Coragem, de novo. Gosto de ousadia, que tem uma coragem embutida, mas tem também inquietação, que é o oposto de acomodação.”

Ela cita o exemplo de Fernanda Montenegro, com quem contracenou nas cenas finais de “Ainda Estou Aqui”, filme vencedor do Oscar produzido por seu irmão, Rodrigo Teixeira. Manoella viveu Veroca, uma das filhas da protagonista Eunice Paiva, já na fase adulta. “Fernanda Montenegro tem 95 anos e é muito inquieta até hoje. Está sempre assistindo a tudo, tem uma inquietação mesmo, não para de produzir, de pensar, de criar.”

A atriz fala de inquietação para retomar o tema da intimidade, destacando o desafio de se expor ao público dessa maneira pela primeira vez. O casal, entre cafunés e chamegos de Restiffe, brinca que teria sido mais fácil exibir as fotos fora do Brasil. A abertura da mostra, no dia 30, reuniu mais de mil pessoas, um recorde da galeria, segundo a Fortes D’Aloia & Gabriel. “Aqui as pessoas nos conhecem, conhecem bem a Manoella, me conhecem. Então tem mesmo uma…”, diz ele, antes de a parceira completar, aos risos: “Coragem”.



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