Mise-en-scène: Grupo teatral denuncia exclusão social em peça inspirada em Rosa Parks

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Mise-en-scène: Grupo teatral denuncia exclusão social em peça inspirada em Rosa Parks


Em uma cena que se repete diariamente nas cidades brasileiras, uma mulher negra em cadeira de rodas acena para o ônibus – e é ignorada pelo motorista que segue viagem. Esta poderosa imagem é o ponto de partida do novo espetáculo da Zózima Trupe, “A (Ré)tomada da Palavra ou A Mulher que Não se Vê”, que estreia em 2025 celebrando os 18 anos do grupo teatral. A montagem transforma o ônibus – palco móvel da companhia desde 2007 – em um potente símbolo das opressões contemporâneas.

Com dramaturgia de Shaira Mana Josy (do Slam Dandaras do Norte) e Piê Souza, e interpretação da performer Ma Devi Murti, a obra conta a história de Rosa, uma trabalhadora da limpeza que testemunha a cena de exclusão. Quando ela insiste para que o motorista pare e desce para ajudar a passageira, encontra apenas uma cadeira de rodas vazia – imagem que, nas palavras do diretor Anderson Maurício, “evoca imediatamente a memória dos navios negreiros, mostrando como o transporte público reproduz lógicas históricas de violência”.

A peça estabelece um diálogo profundo entre duas referências fundamentais: o ato de resistência de Rosa Parks em 1955, quando se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um homem branco nos Estados Unidos, e a trajetória da ativista brasileira Flávia Diniz (1983-2024), mulher negra, com deficiência, mãe solo e integrante do coletivo Vidas Negras com Deficiência Importam. “Queremos mostrar como essas violências se entrelaçam – o racismo, o capacitismo, o machismo e a pobreza”, explica Maurício.

Os dados da SPTrans sobre o perfil dos usuários de ônibus na pós-pandemia reforçam a urgência do debate: 57% dos passageiros são mulheres jovens e negras, e 70% continuaram dependendo exclusivamente do transporte coletivo, evidenciando as desigualdades no acesso ao trabalho remoto. O espetáculo denuncia o que Maurício chama de “a crueldade do sistema capitalista exploratório-predatório que faz da mulher negra uma Atlas contemporânea, obrigada a carregar o mundo nas costas”.

Durante o processo criativo, o coletivo se deparou com um paradoxo revelador: ao incorporar uma cadeira de rodas no palco, perceberam que espectadores com deficiência ficariam sem acomodação adequada. “Se os ônibus só têm um espaço adaptado, como podemos falar de inclusão de verdade?”, questiona o diretor. Esta contradição foi incorporada à dramaturgia, tornando-se mais uma camada de crítica ao sistema.

A trilha sonora, composta por Victória dos Santos e Aworonke Lima, mistura referências africanas e urbanas, criando uma paisagem sonora que dialoga com a narrativa. A cenografia transforma o palco em um espaço liminar entre ônibus e navio, enquanto a iluminação constrói atmosferas que alternam entre o cotidiano e o onírico.

Premiado na 19ª edição do Prêmio Zé Renato, o espetáculo reafirma o compromisso da Zózima Trupe com uma arte que ocupa espaços públicos e provoca reflexão. “Rosa Parks nos mostrou que revoluções podem começar com um simples ‘não’. É essa potência do cotidiano que queremos celebrar”, conclui Maurício.

Programação gratuita:

  • Terminal Parque Dom Pedro 2º: 4 a 13.jul (sex/sáb 20h; dom 19h)

  • Praça Franklin Roosevelt: 18.jul a 28.set (sex/sáb 20h; dom 19h)

  • Praça das Artes: 7 a 9.ago (sex 20h; sáb 20h; dom 19h + qui 7/ago 20h)


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