‘Minha Terra Estrangeira’ mostra povo indígena como expatriados do Brasil

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‘Minha Terra Estrangeira’ mostra povo indígena como expatriados do Brasil


Quando a bilheteria abriu, bastaram poucos minutos para que todos os ingressos se esgotassem em menos de meia hora. Todo esse furor não era para nenhum filme de Hollywood, mas para a estreia de “Minha Terra Estrangeira”, novo filme de João Moreira Salles, dividindo a direção, pela primeira vez, com Louise Botkay e com o coletivo Lakapoy.

Formado por cineastas indígenas da etnia paiter suruí, o coletivo tem pressa. “A Terra está falando, não há mais tempo”, afirma um dos fundadores do grupo, Ubiratan Suruí. O filme tem dois protagonistas, Almir Suruí, tio de Ubiratan e cacique geral do povo paiter suruí, e Txai Suruí, prima de Ubiratan, filha de Almir, coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé e também uma colunista deste jornal.

Almir foi candidato a deputado federal por Rondônia, um dos estados mais bolsonaristas do país e Txai dedica a vida dela à luta pela floresta. O filme acompanha os dois durante os últimos 40 dias das eleições de 2022. Por isso a participação de Louise Botkay, com experiência no projeto Vídeo nas Aldeias, foi fundamental.

“Nossa equipe rodou 8.000 quilômetros. A ideia foi fazer muito plano sequência, câmera na mão. Passamos por situações extremas e adversas, mas, como tínhamos um desejo compartilhado muito grande, os desconfortos foram amenizados”, afirma Botkay.

Brancos fazendo filmes com indígenas tem sido algo comum nos últimos anos, em especial no Brasil. O próprio coletivo Lakapoy participou de “Ex-Pajé” (2018), de Luiz Bolognesi. Ano passado, no Festival de Cannes, na França, Eryk Rocha lançou “A Queda do Céu”, feito com Gabriela Carneiro da Cunha e Davi Kopenawa. Mas o que os indígenas acham disso?

“Falta no cinema um olhar de humanidade para nós. Ninguém fala da nossa saúde mental, por exemplo. A gente também é um povo amoroso, da coletividade. Não vivemos de luta o tempo todo, apesar de que não é possível tirar a luta de nós”, afirma Txai.

Essa crítica sobre narrativas indígenas enviesadas também está num dos momentos mais tocantes do filme, quando João Moreira Salles, em dúvida quanto a legitimidade do próprio filme, questiona Txai Suruí sobre o fato de ser um homem branco filmando uma mulher indígena. O repórter perguntou a Moreira Salles se o novo longa se diferencia da filmografia dele, composta em sua maioria por obras que retratam a intimidade de pessoas próximas a ele.

“Esse não é um filme sobre o outro. É sobre nós! Se a floresta acabar, nós acabamos”, respondeu.

Em 2019, João Moreira Salles decidiu morar por seis meses em Belém para se aproximar da Amazônia, segundo ele o patrimônio mais importante do Brasil. Dessa viagem, resultaram uma série de reportagens para a revista Piauí e um livro, “Arrabalde”, publicado pela Companhia das Letras.

Existia a promessa de um filme a ser feito sobre a Amazônias, mas esse filme ainda não foi feito. O perigo iminente das eleições de 2022 e a democracia na berlinda fizeram com que o diretor

mudasse o foco da narrativa. “Quem realmente decide sobre as coisas no Brasil?”, questiona Txai.

“João apresentou quatro versões do filme para a gente. Todas erradas”, diz Ubiratan, arrancando gargalhadas da equipe. “O filme estava ao contrário”, complementa Txai. Moreira Salles aceitou as críticas e subverteu o próprio olhar. “A derrota de Almir é mais relevante do que a vitória do Lula.”

A estrutura do filme foi radicalmente alterada nessa construção coletiva. A montagem levou mais de um ano. O roteiro vai e volta no tempo branco, linear, e abraça o tempo indígena, circular. Por isso o segundo turno aparece antes do primeiro e algumas sequências se repetem com pequenas diferenças entre elas.

Dos 50 candidatos indígenas a deputado federal nas últimas eleições, apenas cinco venceram. “A experiência indígena é viver a derrota”, diz Moreira Salles. Quanto mais vamos ter que perder? Quem serão os guardiões da floresta nos próximos anos? Como planejaremos melhor nossos territórios de modo que os indígenas não sejam estrangeiros no próprio país deles? Essas são perguntas que o filme não responde, mas deixa no ar.



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