‘Medicina do Instagram’: especialistas alertam para a perigosa ilusão do uso excessivo de vitaminas D e B12

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
‘Medicina do Instagram’: especialistas alertam para a perigosa ilusão do uso excessivo de vitaminas D e B12


O que muitos enxergam como algo inofensivo e “natural” pode, na prática, esconder riscos graves: de intoxicações a complicações renais

Por

Cinthya Leite


Publicado em 13/09/2025 às 20:35
| Atualizado em 13/09/2025 às 21:14



Clique aqui e escute a matéria

Na era da chamada “medicina do Instagram”, em que conselhos rápidos e fórmulas mágicas circulam com milhares de curtidas, cresce um hábito preocupante: o uso indiscriminado de vitaminas. O que muitos enxergam como algo inofensivo e “natural” pode, na prática, esconder riscos graves: de intoxicações a complicações renais.

Esse impacto da desinformação será um dos temas da programação do 18º Congresso Brasileiro de Clínica Médica (CBCM), que acontece de 8 a 11 de outubro, no Centro de Convenções de Pernambuco.

Durante o evento, a médica clínica Jeniffer Lopes, vice-presidente da Sociedade Pernambucana de Clínica Médica (SPCM), ministrará uma aula sobre os perigos do consumo excessivo de suplementos que se vendem como milagrosos. 

Quando a vitamina deixa de ser aliada

A médica descreve um fenômeno repetitivo: de tempos em tempos, uma vitamina ganha status de “cura milagrosa” e passa a ser consumida sem critério. Um exemplo marcante é a vitamina D. Protocolos sem respaldo científico e doses próximas da toxicidade passaram a circular como regra.

‘;
window.pushAds.push({ id: “banner-300×350-area” });
}

‘;
window.pushAds.push({ id: “banner-300×250-4” });
}

“O paciente acredita erroneamente que vitamina é sempre do bem, é natural, não faz mal. Esse é o maior desafio”, explica Jeniffer. Assim, discussões cotidianas como “meu médico mantém a dose em 60” ou “meu nutricionista prefere acima de 50” se tornaram comuns. Nesse contexto, a médica clínica rebate: “Existem referências, indicações, protocolos bem estabelecidos. Não é para ser ao sabor de preferências individuais”.

Os riscos subestimados da vitamina D

O excesso da vitamina pode causar intoxicações graves. Entre as consequências, estão cálculo renal e crises dolorosas que levam muitos pacientes à emergência.

A médica clínica Christyanne Rodrigues, diretora científica da SPCM e preceptora de clínica médica do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, recorda que, no auge da pandemia de covid-19, o consumo descontrolado de vitamina D resultou em internações por hipercalcemia, condição perigosa em que o cálcio no sangue sobe a níveis que podem exigir até hemodiálise.

O problema se agrava porque muitos pacientes não relatam o uso da vitamina aos médicos e acreditam que “não conta como medicação”. Esse comportamento se repete com chás e suplementos, o que mascara possíveis causas de doenças.


CORTESIA

“Grande parte dos pacientes intoxicados nunca teve indicação formal de usar vitamina D”, reforça Jeniffer Lopes – CORTESIA

Um caso citado por Jeniffer ilustra o extremo da situação: injeções clandestinas de óleos veterinários com vitaminas A, D e E, usadas para “moldar” músculos. O resultado? Lesões graves, cálcio elevado, cálculos renais bilaterais e risco de doença renal crônica.

“Grande parte dos pacientes intoxicados nunca teve indicação formal de usar vitamina D”, reforça Jeniffer. 

A perigosa obsessão pelos “500 para cima”

Além da vitamina D, a vitamina B12 se tornou a “queridinha” da desinformação. “De repente, surge a ideia de que só valores acima de 500 são aceitáveis, e as pessoas começam a perseguir esse número, repetindo exames a cada três meses”, relata Jeniffer.

A confusão é ampliada pela diferença entre valores de referência de laboratórios e o que é, de fato, clinicamente relevante.

Embora a deficiência de B12 seja séria (pode causar depressão, alterações neurológicas e até anemia), a maioria dos pacientes que hoje faz suplementação não tem indicação. “Muitas vezes, a sensação de melhora vem do efeito placebo”, diz Jeniffer.

Quando a “vitamina inofensiva” vira caso de hospital

O médico clínico Marcus Villander, presidente do 18º Congresso Brasileiro de Clínica Médica (CBCM), comenta sobre o caso de um paciente internado com abscesso nas nádegas devido a múltiplas injeções de vitamina B12. “À primeira vista parece inofensivo: ‘uma vitamina não vai me fazer mal’. Mas a quebra da barreira da pele causada por uma injeção desnecessária levou à formação de um abscesso, infecção local, internação hospitalar, drenagem cirúrgica e uso prolongado de antibióticos”, relata Villander. 

“Esse é um exemplo do que o professor Dr. Chicão (como é conhecido o médico Francisco Barretto) chamava de ‘eficiência do erro’: uma bola de neve que começa errado e termina pior. Uma reposição sem necessidade pode gerar um desfecho muito mais sério do que se imagina. E isso não é teoria: acontece na prática, no dia a dia”, alerta Villander.  


JC IMAGEM

“A lição é clara: não acredite em tudo que aparece nas redes sociais. Não existe indicação de rastreamento populacional de deficiência de vitamina B12”, alerta Marcus Villander – JC IMAGEM

O desafio de desconstruir mitos

A batalha, segundo as médicas, vai além do consultório. A popularização de prescrições sem base científica por influenciadores e figuras públicas cria um ciclo difícil de romper.

“O paciente chega dizendo que viu um doutor, com 100 mil seguidores e clínica luxuosa, recomendar 50 mil unidades de vitamina D e B12 em níveis altíssimos. É um desafio desconstruir isso”, lamenta Christyanne Rodrigues. 

Na visão de Jeniffer, fazer com que essa discussão seja disseminada é essencial para prestar um serviço à população. “Essas informações são de utilidade pública. Precisamos combater a desinformação com conhecimento sólido, para proteger a saúde das pessoas”, diz a médica clínica.

Condições que exigem atenção à vitamina B12

Há casos em que algumas pessoas vão precisar de suplementação. “Hoje usamos muitas medicações que podem levar a deficiências leves de vitamina B12, como omeprazol, muito utilizado para dor de estômago, azia, queimação e refluxo. Outro caso é a metformina, usada para pré-diabetes, diabetes e intolerância à glicose, que também pode reduzir a absorção da vitamina”, frisa Marcus Villander. 

Outro exemplo são os pacientes que passam pela cirurgia bariátrica. Eles costumam precisar de reposição vitalícia de B12. “Às vezes, a pessoa deixa de tomar por descuido, muitos anos após a cirurgia, e acaba desenvolvendo deficiência porque o corpo não absorve a vitamina”, destaca o médico clínico Flávio Pacheco, chefe da Clínica Médica do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip).

Esses são cenários específicos (uso de determinadas medicações ou histórico de cirurgia bariátrica), em que, se houver acompanhamento médico, com história clínica e exame físico completos, será possível determinar se há necessidade de dosar e suplementar a vitamina B12.

“Só faz sentido solicitar esse exame quando há risco de deficiência ou quando o paciente já apresenta sinais clínicos compatíveis. Portanto, a lição é clara: não se deve acreditar em tudo que aparece nas redes sociais. Não existe indicação de rastreamento populacional de deficiência de vitamina B12”, reforça Marcus Villander.

As recomendações desnecessárias, segundo o médico, geram ansiedade e despesas, quando, na verdade, a testagem deve ser restrita a populações específicas. O mesmo acontece com vitaminas em geral, que acabam virando moda.

Vitaminas D e B12 na neurologia 

Embora o uso indiscriminado de vitaminas seja motivo de preocupação, há situações em que a dosagem realmente faz diferença. “Pacientes com doenças neurológicas desmielinizantes, como a esclerose múltipla, precisam de atenção especial à vitamina B12, já que ela participa da mielinização”, explica o neurologista Marcílio Oliveira Filho, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital da Restauração e secretário-geral do Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe).

A mielinização mencionada por Marcílio é um processo de formação da mielina, uma espécie de “capa protetora” que reveste os nervos e garante a boa condução dos sinais do cérebro para o corpo. A vitamina D também entra nesse cenário: quando está em níveis baixos, está associada a pior prognóstico (uma evolução menos favorável da doença), com maior risco de agravamento e novos surtos.

Nesses casos específicos, portanto, o rastreamento e a reposição orientada por médicos são fundamentais. Mas essa necessidade não se aplica ao paciente em geral.

Segundo Marcílio, para quem não apresenta queixas ou condições específicas, não faz sentido rastrear, suplementar ou seguir protocolos sem base científica. Muito pelo contrário: isso gera custos elevados e pode causar complicações.

“Recebemos pacientes com hipervitaminose D (intoxicação causada pelo excesso de vitamina D no organismo) decorrente de reposições sem indicação, inclusive para tratar esclerose múltipla – algo que não existe”, acrescenta o neurologista. 

Assista ao episódio 45 do videocast Saúde e Bem-Estar





Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *